Juventude: O que pensam os secundaristas de 2015 sobre o Brasil de 2018?

CARTA CAPITAL 

por Carol Scorce — publicado 09/11/2018 01h01, última modificação 08/11/2018 12h50
Alguns deles já são universitários e, apesar do medo e das preocupações, insistem nos espaços de ensino como um lugar próprio para exercer a cidadania
Rovena Rosa/ Agência Brasil
Estudantes secundaristas
Muitos foram perseguidos após as ocupações e encaram os desafios de fazer política nas universidades
Se por um lado o momento político parece inflamar manifestações violentas e e incentivar o discurso de ódio, a reprodução dessa cólera esbarra em barreiras potentes. Na primeira semana pós-eleição algumas universidades se tornaram palco para rechaçar a violência e construi resistência. Os universitários de hoje - alguns deles os secundaristas do movimento de 2015 – revelam, mais uma vez, que os espaços de ensino ainda são importantes ambientes para a participação social. 
Nas regiões onde eles lideraram as ocupações ficou o legado de menos salas fechadas, mas a vida dessas meninas e meninos tomou contornos diversos. Depressão, perseguição, senso crítico fortalecido e o estímulo para outras formas de engajamento político e social ficaram. 
Agora, diante de um futuro cada vez mais incerto, e depois de um processo eleitoral dramático, os jovens - alguns deles na universidade -, tentam se rearticular para dar conta do presente. 
Em 2015, Gabrielli Andrade da Silva, hoje com 19 anos, estudava no colégio Américo Brasiliense, um dos mais tradicionais de Santo André, na Grande São Paulo. Ela participou da ocupação da escola e elegeu-se presidenta do grêmio estudantil.
Há um ano Gabrielli cursa Direito em uma universidade privada de São Paulo. Um pouco antes de deixar o ensino o médio, ela se afastou do movimento estudantil e, embora hoje seja filiada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), limita sua militância a ações do dia a dia e mobilizações específicas.
“Eu esti em depressão por um tempo. Fiz terapia e ainda faço, mas já estou em outra fase. Muitos de nós (secundaristas) sofremos perseguição, ameaça; era pesado. Resolvi me afastar pela minha saúde mesmo. Agora na universidade é difícil, a estrutura não favorece que a gente se organize. É diferente. Não me sinto parte de lá como era da escola”, conta a jovem.
O jeito para a universitária foi participar das mobilizações de rua durante a campanha, como a do #Elenão, puxada pelas mulheres. "Para mim as eleições foram trágicas. Estou com medo do que está por vir. Além das perseguições, ficaremos sem muitas oportunidades."
O que Gabrielli não somou ao seu balanço dos frutos do movimento secundarista de 2015 foi a influência das ocupações para a tomada de consciência dos estudantes em todo o País. 
Vice-presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) do Ceará, Jonathan Sales, 18 anos, se inspirou nas ocupações de São Paulo para, em 2016, apoiar o aviso de greve dos professores do seu estado:  uniu colegas que, em menos de um mês, ocuparam dez escolas cearenses.  
Ainda que preocupado, o estudante do terceiro ano do ensino médio aposta no momento político atual como oportunidade para conversar com mais pessoas. “A cada proposta descabida promovemos novas discussões e aos poucos vamos avançando”, acredita.
Sobre o medo de sofrer represálias ou de pessoas contrárias às ocupações, Jonathan diz já ter sido insultado por policiais e que vários de seus amigos de ocupação foram agredidos e ameaçados. “Nenhuma ameaça se concretizou. Hoje o medo é de ser agredido por ter uma posição contrária ao ódio, ao fascismo, de ser agredido por ser contra a agressão.”
O secundarista conta que o debate eleitoral reacendeu as discussões políticas nas escolas de Fortaleza, com uma tendência a polarização de ideias. “Estamos debatendo com os alunos para mudar isso. O jeito é dizer qual é a nossa realidade e a necessidade de enfrentar um projeto que retira nossos direitos e nos cala”, argumenta o garoto.
Com todas as dificuldades, Jonathan não encara com desânimo o que está por vir. Para ele, o momento é de resistência. “É hora de ir às ruas. Fortalecer as bases do movimento estudantil. O Senado quer criminalizar os movimentos sociais e o governo privatizar a previdência, que vai prejudicar principalmente nós, jovens, que estamos entrando no mercado de trabalho agora."
Assim como Jonathan, o estudante Vitor Teixeira, de São Paulo, acredita que os movimentos sociais precisam estar mais presentes nas periferias. 
Vitor tinha 17 anos na época das ocupações. A escola onde estudava não seria diretamente atingida pela reorganizar escolar proposta pelo governo de Geraldo Alckmin à época, mas ele e seus colegas decidiram ocupar a unidade após um episódio de violência da polícia contra seus professores. Pesou também a solidariedade aos colegas que seriam atingidos pelo fechamento das salas e unidades.
“Foi o maior aprendizado que tive. Sabia que a escola era sucateada, todo mundo que estuda na escola pública sabe, mas foi na ocupação que eu entendi que isso faz parte de um projeto. Defendo programas de inclusão social e hoje entendo por quem devo lutar, que é o povo da periferia, que é de onde eu sou.”
Vitor está estudando História em uma universidade privada por meio do Prouni. Ele está no Diretório Acadêmico mas, como a instituição é nova, a falta de tradição política no espaço cria dificuldades. “Eles (os proprietários da universidade) fazem o que podem para nos minar lá.”
Sobre o polêmico - e sempre de volta - projeto Escola Sem Partido, o jovem é categórico ao afirmar que a intenção é suprimir movimentos como os de 2015. “Querem silenciar as escolas, querem silenciar os estudantes. Não querem estudantes como eu e meus colegas de ocupação. Não querem questionamentos. Querem robôs para serem força de trabalho. O estudante que luta pela educação, quando virar adulto, vai lutar por outras coisas, eles sabem. O discurso de doutrinação é o mais oportunista de todos”, conclui.
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