O gemido das urnas

PORTAL VERMELHO

Eron Bezerra *

O resultado das urnas que se abriram no último dia 02 de outubro expressa um misto de revolta e absoluta desorientação. E nem poderia ser diferente. Poucos são os atores desse processo que não se renderam ao mantra da despolitização e da picaretagem como método político, dentre os quais se apresentarem como “apolíticos” e abandeirados de plataformas completamente desprovidas de conteúdo de classe.


Tanto o cenário de revolta quanto de desorientação são extremamente perigosos, na medida em que, no fundamental, negam a democracia como método de representação e tendem a eleger a “abstenção” ou o “vale tudo” como alternativas ao modelo atual.

O sentimento geral é que não há mais ordem legal e, portanto, não adianta recorrer. A lógica do “olho por olho, dente por dente” passa a ser a premissa das ações.

Não por acaso essas eleições registraram o maior índice de violência contra candidatos, incluindo em torno de 20 assassinatos. Tal barbaridade é a expressão clássica da falta de acatamento ou de respeito pelas instituições. Quando a população assiste, estarrecida, um golpe ser executado à luz do dia sem que haja qualquer reação de instituições como o Ministério Público e o Poder Judiciário que, constitucionalmente, tem a atribuição e dever de zelar pelo respeito à norma legal, esse “vale tudo” é extremamente reforçado.

Foi nesse cenário que as eleições foram realizadas. Um resultado adverso para o campo progressista, em especial o PT, era esperado. Afinal, desde que as forças progressistas assumiram o governo central, há 13 anos, não há um único dia em que a direita, de forma ardilosa, não tenha tentado solapar e criar embaraços para o governo de então.

É normal, portanto, que parte do povo fique desorientado. E essa postura é mais acentuada onde as forças conservadoras estão há mais tempo no comando dos governos locais e recorrendo sistematicamente a esses métodos pouco republicanos, como é o caso do estado de São Paulo.

Diante desse cenário é natural que surjam manifestações oportunistas, sejam negando a política ou tentando reeditar velhos bordões com base na ética na política, que já iludiu tanta gente. Em ambos os casos é um recurso de retórica para impedir que o povo siga em frente e encontre uma solução definitiva para o impasse em que se encontra, ou seja, se livrar do sistema capitalista que, crescentemente, revela incapacidade de assegurar a rentabilidade que a burguesia reclama e, muito menos, de resolver os problemas sociais que se avolumam.

Mas, como o novo nega o velho e velho nega o novo, nem tudo é tragédia. Assim como não se pode parar a roda da história, também não é possível impedir que o povo faça o seu próprio aprendizado e se liberte dos grilhões da escravidão capitalista.

* Professor da UFAM, Doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Coordenador Nacional da Questão Amazônica e Indígena do Comitê Central do PCdoB.
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