19 de nov de 2015

OPINIÃO

LAMENTAM A TRAGÉDIA DE MARIANA, MAS DEFENDEM O COMPLEXO PORTO SUL



A lógica que destruiu o Rio Doce quer cravar um porto de exportação de minério no coração da Mata Atlântica.

Editorial do Blog do Gusmão

É hipócrita a postura de quem lamenta o crime ambiental da Samarco e, ao mesmo tempo, defende o projeto Pedra de Ferro/Porto Sul. Esses estão indignados com a morte do Rio Doce, mas acham natural que a Bahia Mineração se aproprie de recursos hídricos da região de Caetité.

A Comissão Pastoral da Terra organiza a resistência de comunidades afetadas pela Bamin em Caetité. Segundo a entidade, a empresa do Cazaquistão quer transformar o vale do riacho Pedra de Ferro numa “barragem de rejeito, transformando o rico manancial numimenso mar de lama“.

Enquanto isso, no sul da Bahia, a Bamin pretende usar água do Rio Almada no processo de pelotização do minério. Cabe lembrar que esse rio abastece Itabuna e enfrenta períodos de seca em determinadas épocas do ano.

O que os defensores do projeto Pedra de Ferro/Porto Sul têm a dizer para as pessoas que correm o risco de ficar sem água para que uma empresa estrangeira arranque as riquezas do seu território? Esse é o progresso?

O Brasil reproduz o papel de exportador de matéria-prima há cinco séculos. Nessa história, nos especializamos em perder. O projeto Pedra de Ferro/Porto Sul é um fruto anacrônico dessa sina. O mesmo vale para o modo como a construção da Ferrovia Oeste-Leste tem sido conduzida. A Comissão Pastoral da Terra também acompanha os impactos da FIOL sobre os recursos hídricos e as comunidades que já sofrem com a falta de água para produzir.

Ainda resta ao Brasil 7% de Mata Atlântica preservada. O complexo Porto Sul ameaça partes consideráveis desse bioma no Sul da Bahia. Áreas importantes, ricas em biodiversidade, serão suprimidas ou pressionadas pela expansão demográfica em Ilhéus, Uruçuca e Itacaré.

O Porto Sul, antes de sair do papel, já atraiu outro projeto. A Sul Americana de Metais S/A (SAM) quer construir um mineroduto entre o norte de Minas Gerais e Ilhéus. O trajeto prevê um corte de 18 quilômetros no território da Área de Proteção Ambiental da Lagoa Encantada para enfiar o tubo onde o minério de ferro será transportado.

Para completar, a fragilidade dos processos de licenciamento ambiental não inspira confiança. Segundo o britânico Roger Moody, um dos maiores estudiosos dos impactos socioambientais e econômicos da mineração, “a própria mina [do projeto Pedra de Ferro]começou a operar em terra confiscada dos agricultores locais, sem consulta adequada, e em violação aos regulamentos básicos ambientais, de saúde e segurança.

Quem garante que aqui será diferente?