17 de nov de 2015

MILTON CEDRAZ - A SECA E O SEMIÁRIDO

BAHIA ECONÔMICA
                                                                


A vegetação que caracteriza o nosso semiárido é a caatinga. Essa região apresenta situações inusitadas e surpreendentes. Nas áreas serranas, belas paisagens, exuberantes florestas, vegetação bem ordenada, segundo as características do microclima.  Nas demais, vegetação xerófila e muitas vezes, agressiva. Ninguém a descreveu melhor do que o misto de engenheiro e escritor, Euclides da Cunha, em Os Sertões.

A caatinga, bioma único no mundo criado pela natureza para demonstrar com sua vegetação xerófila que se pode conviver bem, com prolongadas estiagens, vem sendo, impiedosamente devastada. Quanto a sua fauna, a situação da ararinha azul dispensa comentários.

A caatinga tem sido tratada com tão pouca relevância que até a Constituição de 88, não lhe faz referencia. Assim, se poderia chama-la de bioma “Jeca Tatu”, personagem criado por Monteiro Lobato para ajudar seu amigo, Candido Fontoura Silveira, a vender seu Biotônico.

Tivéssemos explorado racionalmente a sua flora e fauna, hoje o impacto das secas nem seria sentido e o patamar do desenvolvimento regional seria outro. O semiárido, denominado de Polígono das Secas, possui um milhão e 80 mil km², aproximadamente, englobando 1.348 municípios. O baiano, cerca de 33% dessa área ou seja, pouco mais de 355 mil km², o que corresponde a 53% do seu território, onde se insere quase 50% da sua população.

O semiárido baiano corresponde à soma das regiões semiáridas dos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte e ainda sobram mais de 40 mil km². Entretanto, desde 1847, ainda no governo imperial, já se cogitava em efetuar transposição das águas do rio São Francisco para essas áreas, onde já se acumulam um dos maiores volumes de água doce da face da terra. E assim está sendo feito, aos trancos e barrancos, a despeito da sua reconhecida inutilidade.

As águas transpostas serão levadas para manter as dos açudes construídos, sempre em níveis elevados, ignorando-se os expressivos custos operacionais para tanto e os estudos hidrológicos que definem a regularização das suas vazões. Contudo, até hoje não se criou um programa para distribuição de toda essa água, para abastecimento da população, por uma rede capilar de adutoras. Enquanto isso, o que fazer com toda essa água armazenada?

A literatura de cordel descreveu, com muita fidelidade, a luta dos vaqueiros para juntar o gado na imensidão das caatingas, pois, a pecuária encontrou nesta, condições propícias para o seu desenvolvimento, principalmente pelo clima sadio para os animais. Um pouco mais de tecnologia para seu adequado manejo e ter-se-ia alcançado a sustentabilidade que hoje tanto se propala e os impactos das secas, lembranças do passado!

Em vez disso, a caatinga foi dando lugar, de forma inadequada, à implantação da pecuária bovina, provocando modificações graves nos diversos microclimas. Este processo se acentuou a partir da década de setenta, com os incentivos dos sucessivos programas governamentais equivocados. Particularmente o Proterra, que embora tivesse tido seus méritos, com a introdução do capim Buffel e do nelore, teve o demérito de incentivar o desmatamento e substituição indiscriminada da caatinga por diversas gramíneas, inclusive a braquiária.

Até então, a caatinga estava, praticamente intacta e preservada, mesmo com o preço das terras muito baixo, pois, poucos se atreviam explora-la. Não se imaginava a importância da caatinga para enfrentamento e convívio com a seca, como estava a indicar a natureza. Em vez de destruí-la, deveriam ter aprimorado o seu manejo e seu enriquecimento, em qualidade e produção de massa, por hectare.

Em algumas regiões, em vez de animais de grande porte, os pequenos e resistentes às intempéries, como os caprinos, especialmente para a agropecuária familiar. O emérito pesquisador e naturalista, Guimarães Duque, ensina, em seus diversos livros publicados, como se deve proceder. Infelizmente, pouco se fez nessa direção. Por isso, a seca continua fazendo seus estragos, pois, por mais que se queira jamais se vai conseguir transformar o semiárido em região úmida!
 
Milton Cedraz
Engº Agrº Técnico em Desenvolvimento Econômico pela CEPAL/ONU
mcedraz@globo.com