A crise da oposição


Editorial

A leitura dos jornais multiplica os sinais de que, faltando um ano para as eleições presidenciais de 2010, a oposição está em crise. O sintoma mais recente dela são as faíscas do atrito entre caciques do DEM e do PSDB, que estão nervosos, vítimas de ‘tensão pré-eleitoral’ diante das incertezas sobre 2010.

O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), pressiona por uma definição rápida do candidato tucano. O governador mineiro Aécio Neves, sentido-se traído pela cúpula do PSDB, partilha da pressa e resiste a aceitar o papel de vice. Já o governador paulista José Serra pede calma, e protela. Ele quer esperar até março quando poderá ter mais clareza sobre suas chances. E tudo indica que se elas forem pequenas. Ele vai preferir continuar no Palácio dos Bandeirantes.

Há quem diga que a celeuma é jogo de cena, e as cartas já estariam na mesa: Serra é o candidato, Aécio o vice, DEM e PPS suas daminhas de honra. Segundo esta versão, Aécio toparia ser o vice de Serra se o titular concordar em passar-lhe o bastão em 2014. Mas em política, boatos e declarações de vontade sempre sobram na praça – o que faltam são versões honestas e definições concretas.

Entretanto, o nervosismo dos oposicionistas é visível. Desconfiam que o favoritismo de José Serra, apontado pelas pesquisas, está se diluindo e que a candidata do governo, Dilma Rousseff, avança, amplia os acordos partidários e torna-se mais conhecida dos eleitores.

Ao mesmo tempo, a falta de discurso dos oposicionistas vai se tornando um problema para eles. Conforme a popularidade do presidente Lula aumenta e as iniciativas do governo em diferentes áreas sociais e econômicas ganham relevância estratégica e conquistam setores mais amplos, a oposição vai ficando encurralada, sem condições de atacar o governo e sem propostas alternativas para apresentar ao eleitorado.

A própria mídia, que reivindica e exerce o papel de oposição mais raivosa ao governo, está incomodada e reclama do "corpo-mole" da oposição demo-tucana. Quer que ela compre mais brigas com o governo e seja mais contundente. Mas os caciques oposicionistas começam a avaliar o custo-benefício deste tipo de postura e, aos poucos, deixam mídia esbravejar sozinha. Temem que um confronto desequilibrado possa lhes custar não a derrota na disputa presidencial e perdas significativas em suas bancadas na Câmara e no Senado.

Todo este cenário pode parecer, num primeiro momento, bastante auspicioso para as forças de esquerda que apostam na continuidade da experiência política inaugurada com a eleição de Lula em 2002. Mas é preciso cautela e não subestimar o poder de reação da direita, que não medirá esforços em busca do espaço perdido. A crise dos oposicionistas pode ser momentânea, como foi em 2006, na capital paulista, quando o DEM e o setor alckmista do PSDB paulista entraram em choque, foram para a disputa divididos e muitos analistas apontaram o racha como prenúncio da derrota demo-tucana e consequente vitória da candidata petista Marta Suplicy. Não foi o que aconteceu.

Isso pode se repetir e, em nome da volta ao poder em 2010, a direita poderá lamber as feridas e jogar pesado contra os adversários. Neste sentido, as próximas pesquisas poderão fazer parte desta estratégia. É preciso estar atento às manobras pré-eleitorais e fortalecer a ideia de quem em 2010 haverá dois projetos em disputa: o que quer continuar o processo de desenvolvimento econômico e social, soberano e sustentável do país, representado pelo conjunto de forças articulado em torno do presidente Lula. E o outro, que quer levar o Brasil de volta ao passado neoliberal e privatista pelas mãos de José Serra e dos cardeais demo-tucanos. Não há espaço para terceira via nesta disputa, que não será fácil, mesmo com a oposição em crise.
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