247 BRASIL: Entenda por que o Brasil está no centro da disputa global por terras raras e minerais estratégicos
O Brasil no centro da disputa por terras raras
Reservas brasileiras atraem Estados Unidos, China, União Europeia e outras potências, enquanto o país busca transformar sua riqueza mineral em industrialização, tecnologia e soberania
247 – O Brasil tornou-se uma das principais fronteiras da disputa internacional por terras raras e minerais críticos, insumos fundamentais para a indústria tecnológica, a transição energética e a fabricação de equipamentos militares. Estados Unidos, China, União Europeia, Índia, Japão, Coreia do Sul, Canadá e Austrália estão entre os países interessados em estabelecer acordos com Brasília e garantir participação no desenvolvimento das reservas brasileiras.
O cenário foi analisado pela jornalista Christina Lu em ampla reportagem publicada pela Foreign Policy, revista norte-americana especializada em política internacional e uma referência no debate sobre geopolítica, diplomacia e segurança global. A publicação destaca que praticamente todas as grandes potências econômicas desejam participar da exploração das riquezas minerais brasileiras, mas observa que o país ainda precisa definir uma estratégia nacional capaz de transformar esse interesse externo em desenvolvimento industrial, transferência de tecnologia e fortalecimento da soberania.
Segundo a reportagem, a União Europeia foi a mais recente potência a apresentar ao governo brasileiro uma proposta de cooperação na área mineral. O movimento se soma às iniciativas de países que já mantêm negociações ou demonstraram interesse no setor, entre eles Estados Unidos, China, Japão, Índia, Canadá, Austrália e Coreia do Sul.
A corrida ocorre em um momento de crescente preocupação com a segurança das cadeias globais de suprimentos. A competição entre Estados Unidos e China, as restrições comerciais envolvendo materiais estratégicos e o avanço das tecnologias de baixo carbono ampliaram o valor econômico e geopolítico dos recursos encontrados no subsolo brasileiro.
O Brasil possui a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, atrás apenas da China, além de grandes depósitos de nióbio, grafite, manganês e outros minerais considerados essenciais para a economia contemporânea.
As terras raras são utilizadas na fabricação de ímãs de alto desempenho, veículos elétricos, turbinas eólicas, computadores, sistemas de comunicação, equipamentos médicos e armamentos. Algumas das reservas brasileiras incluem as chamadas terras raras pesadas, materiais de elevado valor industrial que se tornaram um dos pontos centrais da disputa comercial entre Washington e Pequim.
Apesar desse potencial, o país ainda enfrenta dificuldades para transformar suas reservas em produção industrial e desenvolvimento tecnológico. A economista brasileira Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, classificou o atual cenário como um momento decisivo.
“Por um lado, todas essas diferentes regiões e países querem entrar no jogo brasileiro”, afirmou de Bolle à Foreign Policy. Por outro lado, o Brasil “está um pouco despreparado para atender a essa demanda”.
Grande parte do território brasileiro ainda não foi mapeada
Uma das principais limitações apontadas pela economista é o conhecimento incompleto sobre as reservas existentes no território nacional. De acordo com de Bolle, apenas cerca de 30% do Brasil conta com cobertura geológica adequada.
“Isso deixa de fora uma enorme parte do país que realmente ainda não foi mapeada”, afirmou.
A falta de levantamentos mais detalhados impede que o governo e as empresas conheçam com precisão o volume, a localização e a viabilidade econômica das reservas. Sem um mapeamento geológico completo, o Brasil também encontra dificuldades para planejar investimentos, estabelecer prioridades e calcular o valor estratégico de seus recursos minerais.
A extração do minério, porém, representa apenas a primeira etapa de uma cadeia produtiva complexa. Para transformar as reservas em produtos de maior valor agregado, são necessárias instalações de separação, refino, processamento e fabricação de componentes tecnológicos.
A China ocupa atualmente uma posição predominante nessas etapas intermediárias. Por isso, Estados Unidos, União Europeia e outras potências procuram alternativas capazes de reduzir sua dependência das cadeias produtivas chinesas.
O interesse pelo Brasil não se limita, portanto, à disponibilidade dos minerais. Os países também avaliam a possibilidade de construir novas cadeias de fornecimento, desenvolver unidades industriais e participar de projetos de processamento fora do território chinês.
Lula rejeita papel de simples exportador de minério
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido que eventuais acordos internacionais sejam acompanhados de investimentos industriais, transferência de tecnologia e agregação de valor dentro do Brasil.
“Não repetiremos o papel de meros exportadores de commodities minerais”, afirmou Lula, em declaração reproduzida pela Foreign Policy. “Estamos abertos a parcerias internacionais que incluam etapas de maior valor agregado e transferência significativa de tecnologia.”
A posição do governo brasileiro procura evitar que o país reproduza um modelo histórico baseado na exportação de recursos naturais sem o desenvolvimento de tecnologias e cadeias industriais nacionais.
Além da mineração, o governo pretende estimular atividades como o refino dos materiais, a produção de ligas metálicas, a fabricação de ímãs permanentes e o desenvolvimento de componentes para veículos elétricos, sistemas de energia renovável e equipamentos eletrônicos.
Essa estratégia poderia ampliar a geração de empregos qualificados, fortalecer a indústria nacional e elevar a participação brasileira em setores tecnológicos de maior valor econômico.
As terras raras também podem ser utilizadas como instrumento de negociação para atrair investimentos estrangeiros em infraestrutura, pesquisa científica e formação de mão de obra. A questão central para o governo é estabelecer condições que impeçam a simples retirada dos recursos e garantam benefícios duradouros ao país.
Brasil ainda busca definir regras para o setor
Outro obstáculo apontado pela reportagem é a ausência de um marco regulatório consolidado. De acordo com Monica de Bolle, o Brasil ainda não definiu claramente o grau de participação do Estado, as exigências de conteúdo nacional e as regras para investimentos estrangeiros.
O país, afirmou a economista, encontra-se “com essa enorme moeda de troca debaixo da terra, que ainda não explorou, e sem a estrutura institucional para sustentar sua exploração”.
Em abril, o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração, Mauro Sousa, informou que o Congresso Nacional analisava até 13 projetos relacionados a terras raras e minerais críticos.
Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou uma proposta destinada a criar um marco legal básico para o setor. O texto prevê incentivos tributários ao processamento dos minerais dentro do Brasil e a criação de um conselho especial com poderes para acompanhar e coordenar projetos estratégicos, entre outras medidas.
A aprovação definitiva depende agora do Senado. A política nacional para minerais críticos, que havia sido projetada para ser apresentada meses antes, ainda não havia sido divulgada no início de julho, segundo a Foreign Policy.
Para Tom Moerenhout, responsável pela Iniciativa de Materiais Críticos do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, o ritmo brasileiro é muito diferente daquele adotado pelos países interessados nos recursos.
“Todo mundo está correndo, e o Brasil está passando por um processo burocrático para decidir qual é a estratégia nacional e como ela será implementada”, afirmou.
A demora pode fazer com que determinados investidores aguardem uma definição antes de comprometer recursos em projetos que exigem grandes volumes de capital e vários anos para entrar em operação.
Ao mesmo tempo, empresas estrangeiras de grande porte, apoiadas por seus respectivos governos, já começaram a negociar diretamente com administrações estaduais. Segundo Moerenhout, a ausência de uma estratégia federal não impediu a entrada de grandes grupos de mineração, mas pode afastar empresas menores preocupadas com futuras mudanças nas regras.
Agência Nacional de Mineração enfrenta falta de recursos
Os desafios também atingem a estrutura responsável pela fiscalização. Em uma conferência realizada em junho, Mauro Sousa reconheceu que a Agência Nacional de Mineração não dispõe de recursos suficientes para acompanhar as inspeções, os processos de licenciamento e os compromissos internacionais assumidos pelo país.
“É uma contradição no coração do Estado brasileiro”, afirmou Sousa, ao mencionar os problemas provocados pela falta de funcionários e pelas restrições orçamentárias.
A carência de pessoal e recursos financeiros dificulta a fiscalização dos projetos, o controle ambiental e a análise dos pedidos apresentados pelas empresas. O problema ganha importância diante da possibilidade de rápida expansão da mineração em diferentes regiões brasileiras.
Sem uma coordenação nacional plenamente estabelecida, companhias estrangeiras vêm procurando governos estaduais para negociar autorizações, incentivos e investimentos. Essa dinâmica pode acelerar alguns projetos, mas também amplia o risco de fragmentação das políticas públicas e de competição entre os estados.
Compra da Serra Verde gera reação no Brasil
Um dos casos de maior repercussão envolve a empresa USA Rare Earth, que anunciou a aquisição da mineradora brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. A companhia brasileira possui uma mina e uma unidade de processamento de terras raras.
A USA Rare Earth conta com apoio parcial do governo dos Estados Unidos, o que aumentou a dimensão geopolítica da operação. A aquisição, entretanto, encontrou resistência dentro do Brasil.
De acordo com a Foreign Policy, um partido de esquerda pediu ao Supremo Tribunal Federal que impedisse a venda, enquanto o órgão brasileiro de defesa da concorrência abriu uma investigação sobre o negócio.
A empresa norte-americana não comentou o caso à publicação.
O episódio evidencia as tensões que podem acompanhar a entrada de capitais estrangeiros em um setor considerado estratégico. Para seus críticos, operações dessa dimensão podem transferir o controle de ativos essenciais para empresas ligadas a interesses externos. Os defensores dos investimentos argumentam que o Brasil necessita de capital e tecnologia para colocar suas reservas em produção.
Eleições ampliam incerteza sobre a política mineral
A proximidade das eleições presidenciais de outubro adiciona um elemento de incerteza ao setor. A reportagem da Foreign Policy aponta que a disputa entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro representa visões diferentes sobre a política externa e a exploração dos minerais estratégicos.
Lula tem defendido o multilateralismo e resistido à pressão do governo do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Brasil assine um acordo bilateral sobre minerais.
A estratégia do governo brasileiro busca preservar relações simultâneas com Estados Unidos, China, União Europeia e demais integrantes do sistema internacional, evitando uma associação exclusiva com uma única potência.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, é apontado como defensor de um alinhamento mais estreito com Washington. Uma eventual mudança de governo poderia, portanto, alterar as prioridades, as alianças e as condições apresentadas aos investidores estrangeiros.
Segundo a Foreign Policy, Lula aparece à frente nas pesquisas eleitorais mencionadas pela reportagem, embora a disputa permaneça apertada. O risco de mudanças bruscas nas políticas públicas e de descontinuidade regulatória pode afetar decisões de investimento em projetos de longo prazo.
A construção de minas, unidades de processamento e instalações industriais exige planejamento de vários anos. Empresas interessadas precisam ter segurança sobre regras tributárias, licenciamento ambiental, participação estatal e condições para exportação.
Riqueza mineral pode fortalecer ou aprofundar dependência
O interesse das grandes potências confirma que as terras raras se transformaram em um ativo estratégico para o Brasil. O país possui condições de participar de cadeias produtivas essenciais para a energia limpa, a indústria digital, a defesa e a mobilidade elétrica.
O resultado dessa oportunidade dependerá, porém, das escolhas feitas pelo Estado brasileiro. A simples exportação dos minerais poderia gerar receitas imediatas, mas manteria o país em uma posição subordinada nas cadeias globais de produção.
Uma política orientada para o processamento, a industrialização e a transferência de tecnologia poderia transformar as reservas em instrumento de desenvolvimento econômico e autonomia nacional.
A reportagem de Christina Lu na Foreign Policy adquire relevância justamente por inserir o Brasil no centro do debate geopolítico internacional sobre minerais críticos. Ao mostrar o interesse simultâneo de Estados Unidos, China, União Europeia e outras potências, a publicação evidencia que as decisões tomadas em Brasília terão impacto não apenas sobre a mineração, mas também sobre a posição do país na nova configuração da economia mundial.
Para Monica de Bolle, a janela de oportunidade pode não permanecer aberta indefinidamente.
“A menos que o Brasil se organize muito rapidamente, perderá essa oportunidade”, afirmou.

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