CNN BRASIL - Análise: O paradoxo da energia limpa desperdiçada
Usina de Energia Eólica (UEE) em Icaraí, no Ceará (CE) • Divulgação/Ari Versiani/PAC
Curtailment expõe um dos principais contrassensos da transição energética brasileira
Pedro Côrtes
Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.
Quando a seleção brasileira entra em campo em uma Copa do Mundo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico acompanha em tempo real oscilações abruptas de demanda.
Em partidas decisivas, o consumo pode cair vários gigawatts em poucos minutos e voltar a subir rapidamente ao final do jogo. Foi isso o que aconteceu no jogo de estreia do Brasil na Copa de 2026. O fenômeno é conhecido há décadas e demonstra a complexidade de operar um dos maiores sistemas elétricos integrados do mundo.
O desafio que hoje preocupa o setor, porém, é muito mais estrutural. O problema já não é a falta de energia. É o desperdício dela. Em diversas ocasiões, especialmente no Nordeste, usinas foram obrigadas a reduzir ou interromper sua produção mesmo com vento e sol disponíveis. Em outras palavras, a energia existe, mas a rede nem sempre consegue transportá-la ou utilizá-la.
Esse corte compulsório da geração, conhecido no setor como curtailment, foi concebido para situações excepcionais de segurança operacional, mas tornou-se um elemento recorrente da operação do sistema elétrico brasileiro.
Segundo compilação citada pelo NeoFeed, a média de cortes passou de 9,6% em 2024 para 20,6% em 2025. Nas usinas solares, os cortes médios chegaram a aproximadamente 35%, enquanto nas eólicas ficaram em torno de 15%.
Os prejuízos acumulados pelo setor nos últimos anos já ultrapassam R$ 5 bilhões, segundo estimativas de associações de geração. Em paralelo, estudos indicam que os cortes na geração solar centralizada poderão atingir patamares próximos de 23% ao ano já em 2026, caso os gargalos de transmissão persistam.
A contradição é evidente. Enquanto o país desperdiça energia renovável de baixo carbono, usinas termelétricas continuam sendo acionadas em diferentes momentos para garantir a confiabilidade do sistema. O resultado aparece tanto na conta de luz quanto nas emissões do setor elétrico.
Esse paradoxo ajuda a explicar a relevância da votação que a Agência Nacional de Energia Elétrica realizará nesta semana. A revisão das regras associadas ao curtailment busca definir critérios mais claros para os cortes obrigatórios de geração e, principalmente, estabelecer as bases para o ressarcimento dos empreendedores afetados.
A discussão ultrapassa a esfera regulatória. Associações do setor argumentam que a atual regulamentação não reflete adequadamente o que foi estabelecido pela legislação mais recente e defendem compensações para os geradores prejudicados. A Aneel, por sua vez, tem alertado que decisões judiciais que suspendem ou alteram as regras vigentes podem produzir impactos significativos sobre a operação do sistema e sobre os custos do setor elétrico.
Ambos os lados possuem argumentos legítimos. Nenhum investidor constrói um parque eólico ou solar imaginando que parte relevante de sua produção será descartada. Da mesma forma, transferir integralmente esses custos para os consumidores seria uma solução difícil de justificar.
O problema, entretanto, não será resolvido por uma canetada regulatória. A origem do curtailment está na velocidade da transformação energética brasileira. A geração renovável cresceu mais rapidamente do que as linhas de transmissão capazes de conectar essa produção aos grandes centros consumidores. O país foi eficiente para construir usinas. Foi menos eficiente para construir a infraestrutura necessária para utilizá-las plenamente.
A solução passa por um conjunto de medidas complementares: expansão da transmissão, armazenamento em baterias, eletrificação de processos industriais, desenvolvimento do hidrogênio de baixo carbono e atração de grandes consumidores eletrointensivos para regiões com excedentes de energia renovável.
O curtailment não representa o fracasso da transição energética brasileira. Representa justamente o contrário. É o efeito colateral de um sucesso que avançou mais rápido do que a capacidade de adaptação da infraestrutura.
O risco é que o país se acostume a tratar como normal aquilo que deveria ser considerado uma exceção: desperdiçar energia limpa em um mundo que busca reduzir emissões, ampliar a segurança energética e acelerar a descarbonização da economia.
FONTE: CNN BRASIL


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