NÃO HÁ O QUE COMEMORAR NA ENTREGA DA SOBERANIA DO TERRITÓRIO NACIONAL A TRUMP
João
Batista de Castro Júnior é Professor Adjunto da Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia, Juiz Federal titular da 1ª Vara da Justiça Federal em Vitória da
Conquista e ex-Promotor de Justiça do MPBA.
“Timeo Danaos et
dona ferentes” (“Temo os gregos até
quando oferecem presentes”): essas
são as palavras que o poeta Virgílio, na sua obra Eneida, põe na boca do
sacerdote Laocoonte, que tentou inutilmente alertar os troianos contra o “cavalo”
dado de presente pelos gregos. A cidade fortificada foi em seguida tomada
depois de ter resistido tão heroicamente...
De modo similar, o brasileiro comum nunca foi muito
precavido contra elogios e tapinhas nas costas de estadunidenses e europeus que
aqui vêm buscar lucros e fingem cair no samba. Mas, felizmente, nunca estivemos
totalmente desprevenidos contra a astúcia estrangeira; a história nos absolve
nesse quesito. Bom exemplo foi a campanha “O Petróleo é Nosso”, deflagrada por
ocasião da descoberta, nas décadas de 1940 e 1950, de reservas do óleo negro na
Bahia, que conseguiu unir partidos de esquerda e militares de direita na defesa
do monopólio estatal dessa riqueza estratégica.
Essa campanha vitoriosa nos poupou de ver petroleiras norte-americanas
ganharem o direito exclusivo de exploração, quando, na verdade, como terminou
ficando provado, pretendiam mesmo era fechar os poços aqui e alimentar a
dependência brasileira. A ineficiência que nossos nativos servis aos EUA
propalaram nunca ocorreu, pois a Petrobrás se tornou um modelo empresarial e de
exploração petrolífera respeitado no mundo.
Mas algo muito pior está acontecendo agora que Donald Trump
classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, sem que a
miopia da extrema-direita e da direita enlouquecida contra o PT se esforce para
ver o cavalo de Tróia que estamos abrigando.
Em primeiro lugar, os EUA não conseguiram até hoje
eliminar nem mesmo suas próprias organizações criminosas. Aliás, nem Benito
Mussolini, com muito mais poder, teve êxito em riscar totalmente a Máfia do
mapa italiano. Não será Trump quem conseguirá fazê-lo com suas investidas
retóricas que terminam quase sempre em concessões vexatórias.
Em segundo, a lógica geopolítica é muito mais complexa do
que os extremistas de direita (muitos dos quais mal conseguem fazer o “o” com o
copo) possam entender, preferindo antes os entusiasmos midiáticos com supostos
trunfos ianques, sem mostrarem o lado B da história, a exemplo do alarde com a
perseguição para culminar na morte de Bin Laden. O que parecia uma vitória (por
sinal, muito demorada) terminou obscurecendo algo tenebroso mais adiante: os
EUA passaram a financiar grupos rebeldes na Síria, que formaram coalizões
táticas com facções extremistas e islâmicas radicais para alcançar objetivos
militares imediatos, permitindo que armamentos fossem parar nas mãos de grupos
designados como terroristas.
O combate terminativo
de organizações criminosas como PCC e CV mostra-se, então, muito mais uma
tarefa mitológica da Hidra de Lerna: a cada cabeça cortada, nascem duas no
lugar. Mas a retórica da Casa Branca só lembra da primeira parte, como ocorreu
com o traficante de drogas El Chapo, do cartel de Sinaloa, no México: ninguém é
inocente a ponto de acreditar que os dutos do tráfico foram fechados. E é quase
impossível fazê-lo, pois seus destinatários finais são as elites perfumadas e
endinheiradas vizinhas da Casa Branca nas suas festas regadas a todo tipo de
orgia, cena que se repete em qualquer lugar do mundo, inclusive bem perto de
nós nas cidades brasileiras mais distantes de Washington.
Nesse tipo de universo, não são, assim, os combates com
armas que chamam a atenção, mas o poder das lubrificações financeiras. Os EUA
sabem disso e a todo instante há notícias que costumam passar despercebidas por
aqui: nas últimas horas, tem sido amplamente noticiado que um ex-alto
funcionário da CIA, David Rush, foi preso nos Estados Unidos após o FBI encontrar
mais de US$ 40 milhões em barras de ouro (cerca de
R$ 200 milhões), além de 2 milhões de dólares em dinheiro vivo, escondidos em
sua residência na Virgínia. Esse é apenas um caso e não é preciso ser gênio
para desconfiar de onde vem tanto dinheiro recebido por quem detinha
informações ultrassecretas no serviço de espionagem americano.
Então, melhor buscar o motivo da medida de Trump em outro
lugar. O CV e o PCC são apenas um
pretexto bem ao estilo americano, profundamente insatisfeito com o crescimento
de alguns indicadores e mecanismos brasileiros, a exemplo do PIX, que chega com
taxa zero a 90% dos adultos e a 80% das empresas, o que em quatro anos solapou
o monopólio de Visa e Mastercard, que foram chorar nos pés do mandatário ianque
exigindo reações imediatas.
Juntem-se a isso os minerais críticos, investimentos
chineses, Amazônia, e finalmente se entende o que de fato está por trás dessa
medida com impressão digital de certa família, a mesma que declara estar
sofrendo penúria nos EUA e aparece morando em mansão de milhões por lá, sem que
se saiba a origem da grana.
Enfim, estamos com um cavalo de Troia no colo de nossa
soberania, e alguns, embriagados pelo ódio doentio e psicodélico ao PT, não
conseguem ou fingem não perceber.

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