ARI DONATO - POESIA E VIOLA: Pedro Santos e a paixão pela viola caipira

 


Tocar e construir viola são duas das coisas de que o violeiro e luthier guanambiense Pedro Santos, 59 anos, mais gosta. Porém uma atrapalha a outra; de modo que, por um bom tempo, ele foi obrigado a se afastar da primeira delas e seguir apenas com a luteria, a ponto de já haver fabricado cerca de 500 instrumentos, entre violas, violões, bandolins, banjos e cavaquinhos. “Para pagar as contas” — responde, sobre este afastamento.

Dias atrás, em conversa ao telefone, Pedro Santos me disse que voltará a participar de encontros de violeiros, já a partir deste mês de maio (2026), em Guanambi, no sudoeste da Bahia, a 120 quilômetros de Monte Azul (MG), onde nasceu o violeiro Tião Carreiro (nome artístico de José Dias Nunes). Foi então que me ocorreu refazer aquela pergunta sobre o porquê de ele haver se afastado dos toques e das cantorias daqueles tempos da dupla Laçador e Cedralense (João Pereira dos Santos e Olívio José Santana).

— Quando passei a fabricar instrumentos, foi algo que deu certo, que decolou rapidamente. Então, entre tocar e fabricar, tive que me dedicar à fabricação, porque é de onde saía o dinheiro para pagar minhas contas, pois eu havia mudado de profissão, e só tocar viola, principalmente aqui na região, não tinha como sobreviver disso... Houve outros motivos, mas o principal mesmo foi a luteria, que tomava tempo e exigia dedicação.

Luthier Pedro Santos em sua oficina, na cidade de Guanambi

Há 50 anos que Pedro Silva convive com a viola caipira; sempre que nos encontramos falamos disso. “Eu comecei a tocar em 1978, mas somente uns dez ou onze anos depois fabriquei a primeira viola” — recorda o agora renomado luthier, fazendo questão de ressaltar que não abandonou a viola, e que viver da arte de tocar e de construir era o seu desejo, mas isto nunca deu certo. “Não cheguei a parar totalmente, tanto que durante o período em que estive afastado gravei alguma coisa em estúdio, gravei CD e tudo mais...” — conta, com ar sério.

A guinada em direção à construção de instrumentos de corda começou no final de 1989, mais exatamente no mês de dezembro, quando Pedro Santos ponteava uma viola. Nesta ocasião, aos 23 anos de idade, ele era um carpinteiro na fazenda Curral de Vacas, no distrito de Morrinhos, no município de Guanambi, e notando que a sua viola já estava castigada pelo tempo e pelo uso, disse para si: “Viola é feita de madeira, sou carpinteiro, então vou fazer a minha.”

Antes de terminar 1990 ele já tinha a primeira viola pronta, que mantem guardada, nos moldes de um troféu. “É rústica, muito rústica mesmo, mas tenho comigo até hoje” — conta, e destaca que entre 1990 e 1997 construiu seis violas, 12 violões e três cavaquinhos, quando então parou a luteria, por não se apresentar como atividade rentosa, o que o desanimou. “Não dava dinheiro e eu tinha de cuidar da família, então voltei para a marcenaria, trabalhei como pedreiro, fiz outras coisas e assim fiquei uns sete anos, até que voltei à luteria, em 2001, animado pelos amigos” — recorda. A partir desta data ele passou a numerar seus instrumentos e deu a todos sua marca “PS” de artesão.

O trabalho artesanal de Pedro Santos, de perfeita transição, une a tradição de quem nasceu no “chão” da música de raiz com o rigor técnico da luteria de alto nível. Para retomar a arte de fazer violas, Pedro dos Santos voltou técnico, estilista e criterioso; adquiriu pinho sueco para usar nos tampos, em lugar do cedro rosa, e melhorou a qualidade das cravelhas, dos metais usados. Com a madeira importada, o preço do instrumento sofreu om aumento substancial.

— De quando eu retornei, em 2001 ou 2002, para cá, acho que já somam uns 500 instrumentos. Foi quando eu passei a enumerar, pois eu não levei em conta aqueles instrumentos da primeira etapa. Foram feitos sem informação, meio que sem conhecimento técnico, tanto é que eu desisti, e na época disse a mim: estou fazendo uma coisa que nem mesmo eu sei o que estou fazendo!

Tão logo retomou a luteria, no que chama de “segunda etapa”, Pedro Santos recebeu a primeira encomenda — deste jornalista e aprendiz de violeiro que vos escreve. O instrumento, uma VMC (Viola Marfim Caipira), de número 2, ficou pronto em agosto de 2002. Com o passar do tempo, diversificou a produção; passou para violão, banjo, bandolim e cavaquinho, enquanto a produção de viola sofria redução, a ponto de ficar até mais de um ano sem construir uma.

TOCAR E CONSTRUIR VIOLA

Certo feita, quando nos encontramos em Guanambi, eu perguntei: mestre Pedro, você deixou de construir viola? A resposta veio no tom de confissão, um tanto grave, entristecida, em meio a queixas das dores lombares que o acometeram nos últimos anos.

— Eu não deixei exatamente. É que quase não recebo encomendas, quase ninguém me pede. Quis o destino que eu fosse bem conhecido na construção do bandolim, então sou muito procurado para fazer bandolins, principalmente de 10 cordas, que envio a toda parte do Brasil e, também, o exterior. Mas viola, realmente, quase não tenho pedidos; de vez em quando acontece de eu fazer uma ou outra.

Pedro Santos acredita que uma das razões para a queda na encomenda da viola caipira seja mesmo o preço do instrumento artesanal, considerado alto, distante “da realidade” de muitos violeiros, mas diz que cobra um valor afinado com o dos demais luthiers. “Realmente, o preço que cobro por um instrumento está acima da realidade daqui da região, mas está dentro do preço da realidade da luteria no Brasil. A maioria dos que querem me encomendar um bandolim paga o preço que eu cobro, mas a maioria dos violeiros que querem me encomendar uma viola, não paga o preço que eu cobro. Por este motivo, eu acabo ficando com os bandolins, porque são os que mais aparecem” — diz, com ar entristecido.

Violão de 7 cordas

DIMINUIR O RITMO

Um outro fator, que não a falta de encomendas, tem feito com que ele reduza o ritmo de trabalho: “Minha a saúde!” — ele disse a mim, em entrevista, queixando-se da sua condição física, das dores que passou a sentir, e que têm dificultado seu trabalho. No começo, Pedro Santos fabricava uma viola em até duas semanas. “Pode ser que passasse um pouco, na busca da melhor acústica, da melhor madeira e da finalização, mas a média era 15 dias para entregar uma viola, um violão”.

— Minha condição física já não é mais a mesma dos tempos passados, por isso eu quero diminuir o ritmo. Eu enfrento dores na coluna, tenho tendinite, bursite e tudo mais. Eu faço tratamento para ir aguentando e, ultimamente, tenho atrasado até encomendas. Estou lutando para reorganizar esta questão de preço e prazo. Eu tenho feito, em média, 18 instrumentos por ano, porém quero diminuir este ritmo, que está muito puxado para mim, que trabalho sozinho. Eu mando encomendas para o Brasil inteiro, até para o exterior; daqui da região são poucas, muito dificilmente acontece uma ou outra. 

Bandolim de 10 cordas

Pedro Santos começou fazendo violas para a região de Guanambi, depois vieram pedidos para construir outros instrumentos, procedentes de Salvador, de Anderson Cunha; Jair Soares, guitarrista de Caetité; Edson Sete Cordas; Ailton Reiner; Armandinho e Aroldo Macedo. Em seguida para o Rio de Janeiro, de Ronaldo do Bandolim; e Brasília, de Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro; Dudu Maia; Jorge Cardoso; Hamilton de Holanda. “E assim, tenho mandado para o Brasil inteiro e para países do exterior, entre os quais os Estados Unidos, da Europa, da Ásia” — completou.


ARI DONATO - Jornalista 

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