Onde elas quiserem: a força feminina que ocupa os diversos lugares na Uesb
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O estereótipo do cientista de jaleco branco em um laboratório ou do profissional das Ciências Agrárias enfrentando a lida bruta do campo tem, historicamente, um rosto masculino. No entanto, esse retrato emoldurado por décadas de exclusão está sendo quebrado. Hoje, a presença feminina não apenas cresce, ela redefine fronteiras e ocupa espaços que antes pareciam intransponíveis.
Nesse
cenário de transformação, a Uesb se destaca como um reflexo vivo dessa mudança.
Pelos corredores dos seus três campi, a presença feminina deixa de ser uma
estatística para se tornar força motriz de produção acadêmica e transformação
social.
A
professora Simone Gualberto, do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Ambientais da Uesb, é uma dessas mulheres. Para ela, a presença feminina na
ciência tem sido um motor de transformação social, rompendo barreiras
históricas de acesso ao Ensino Superior. “Hoje, participamos de forma cada vez
mais ativa da produção científica e contribuímos para ampliar os olhares e as
soluções para os desafios da sociedade”, afirma.
Ao longo
de sua história, a Uesb vem buscando incentivar esse protagonismo por meio de
grupos de pesquisa e laboratórios que integram docentes e discentes em áreas
estratégicas, como Tecnologia, Meio Ambiente e Inovação. Simone ressalta que a
Universidade tem buscado reconhecer os desafios enfrentados pelas pesquisadoras
para consolidar suas trajetórias.
Segundo
ela, ao dar visibilidade a essas contribuições, a Instituição ajuda a construir
um ambiente científico mais inclusivo. “Valorizar a presença das mulheres na
produção do conhecimento é fundamental para fortalecer uma ciência mais
diversa, mais justa e mais conectada com as necessidades da sociedade”, pontua
a professora.
A
professora Mara Lúcia Albuquerque Pereira, do Programa de Pós-Graduação em
Zootecnia, reforça que a inclusão feminina na ciência não é apenas uma questão
de igualdade, mas um fator que eleva a qualidade das descobertas. Ela observa
que, embora as mulheres ainda ocupem apenas cerca de 30% dos cargos de liderança
em pesquisa no mundo, sua atuação é vital para a inovação e a quebra de
paradigmas. “A participação feminina traz novas metodologias e perspectivas,
muitas vezes mais intuitivas e cuidadosas, enriquecendo o ambiente científico”,
destaca Mara.
Ocupando
espaços – A presença feminina na ciência não se limita a laboratórios e centros
de pesquisa. Esse movimento também é refletido em áreas tradicionalmente
associadas ao universo masculino, como às Ciências Agrárias. Por muito tempo,
por exemplo, a presença feminina no campo foi tratada apenas como “ajuda”.
Hoje, essa realidade começa a mudar, especialmente em áreas como a Zootecnia,
onde o número de mulheres tem crescido.
Na
graduação de Zootecnia da Uesb, no campus de Itapetinga, essa mudança é
visível. Atualmente, o curso possui 179 alunos matriculados, dos quais 111 são
mulheres, o que representa 62% do total. A presença feminina se destaca ainda
mais na turma do quarto semestre, formada totalmente por mulheres.
Ana
Vitória Nascimento, natural de Itapetinga, é uma dessas alunas e conta que o
interesse pela área surgiu ainda no Ensino Médio, quando teve o primeiro
contato com a Zootecnia em um curso técnico. Ao ingressar na Uesb e encontrar
uma turma composta apenas por mulheres, a experiência se tornou ainda mais
significativa. Segundo ela, o ambiente de união entre as colegas fortalece o
percurso acadêmico. “Estudar em uma sala cheia de mulheres é inspirador, pois
nenhuma delas te deixa desmotivar. Não deixamos ninguém para trás”, relata.
A
estudante Amanda Silva, natural de Guanambi, também integra a turma. Ela conta
que já foi questionada pela escolha do curso, reflexo da ideia ainda presente
de que as áreas das Ciências Agrárias seriam predominantemente masculinas. Para
ela, esse cenário vem mudando, com a presença crescente de mulheres na
Zootecnia e no agronegócio, demonstrando competência técnica e capacidade de
liderança.
De acordo
com a professora Silmara Carvalho, coordenadora do curso de Zootecnia, a
ampliação da presença feminina acompanha a própria diversidade de áreas de
atuação da profissão. Segundo ela, o trabalho do zootecnista vai muito além do
manejo animal. “A Zootecnia envolve ciência, produção de alimentos,
sustentabilidade e cuidado com os animais. As mulheres têm mostrado, cada vez
mais, que têm muito a contribuir nesse campo”, ressalta.
A
professora destaca ainda a importância de as jovens não se deixarem limitar por
estereótipos de gênero. Embora algumas atividades práticas possam parecer
desafiadoras inicialmente, especialmente aquelas ligadas ao manejo direto com
os animais, na prática, as alunas demonstram segurança e competência no
desenvolvimento dessas atividades. “Se existe interesse, curiosidade e vontade
de aprender, já é um ótimo começo”, completa Silmara.
A
insegurança feminina na Bahia – A celebração do Dia da Mulher também convida à
reflexão sobre a realidade da violência enfrentada por muitas brasileiras. A
professora Zoraide Cruz, diretora do Departamento de Ciências Humanas, Educação
e Linguagens (Dchel) da Uesb, desenvolve uma pesquisa que analisa dados sobre a
violência contra a mulher na Bahia.
De acordo
com o estudo, a maioria das vítimas de feminicídio no estado tem entre 20 e 40
anos, faixa que representa 61% dos casos. Entre elas, 82,5% são mulheres negras
ou pardas. Os dados mostram ainda que 91,7% dos casos são classificados como
feminicídio íntimo, quando há vínculo afetivo ou familiar entre vítima e
agressor. (Confira outros dados aqui)
Para
Zoraide Cruz, a persistência da violência contra a mulher está relacionada a
fatores sociais e culturais que reforçam relações desiguais de poder. “Esses
fatores não atuam isoladamente, mas se inter-relacionam, reforçando estruturas
de desigualdade e dificultando a ruptura de ciclos abusivos”, explica.
A
superação desse cenário, segundo a professora, passa por ações em diferentes
esferas sociais, como o fortalecimento de políticas de proteção às vítimas, a
promoção da autonomia econômica das mulheres e a ampliação da educação para a
igualdade de gênero. Nesse processo, espaços formativos como as universidades
têm papel fundamental na produção de conhecimento e no enfrentamento desse
problema social.
De acordo
com a professora Zoraide, a pesquisa científica permite quantificar a
violência, compreender suas causas estruturais, subsidiar a formulação de
políticas públicas e avaliar intervenções voltadas ao enfrentamento do
problema. “Sem produção sistemática de conhecimento, a violência tende a
permanecer invisível, naturalizada e subnotificada”, explica Zoraide.
Fonte
Ascom/Uesb

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