ICMBio: Homenagem reafirma legado científico e social da arqueóloga Niède Guidon na Serra da Capivara (PI)
Entre paredões milenares, o Parque Nacional da Serra da Capivara guarda, em pedra, registros que atravessam o tempo e revelam as origens da presença humana nas Américas - Foto: Rubem Jayron/ICMBio
Com mais de mil sítios arqueológicos, Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, alia pesquisa, preservação e impacto social, com protagonismo internacional em estudos e descobertas sobre a origem do homem nas Américas
Entre paredões de pedra e registros milenares, o Parque Nacional da Serra da Capivara segue contando histórias que atravessam o tempo. Após novas homenagens à arqueóloga Niède Guidon – incluindo o lançamento de uma revista dedicada à sua trajetória e a instalação de um totem em sua memória –, o território onde ela construiu seu legado reafirma sua importância para a compreensão das origens humanas nas Américas.
Reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco desde 1991, o Parque abriga uma das maiores concentrações de sítios arqueológicos do continente, com mais de 1.200 áreas catalogadas. Nos paredões rochosos, milhares de pinturas rupestres retratam cenas do cotidiano, rituais e práticas de grupos humanos que viveram na região há dezenas de milhares de anos.
Ao reunir ciência, paisagem e memória, a Serra da Capivara se consolida como um dos mais importantes territórios arqueológicos do mundo – um espaço onde estão documentados em pedra a longa história da presença humana no continente americano.
As pesquisas desenvolvidas ao longo das últimas décadas contribuíram para ampliar o debate científico sobre a ocupação das Américas, colocando a região no centro de discussões internacionais na arqueologia. Mais do que um acervo, o Parque se consolidou como um espaço onde o conhecimento científico se entrelaça à paisagem e às memórias das comunidades que habitam a região.
Além da relevância científica, o parque também se destaca como um dos destinos mais emblemáticos do turismo cultural no Brasil, atraindo visitantes brasileiros e estrangeiros. Somente em 2025, a unidade recebeu cerca de 45 mil visitantes, mantendo fluxo constante ao longo do ano e reforçando sua importância no cenário nacional e internacional.
Entre memória e permanência
Foi a partir do trabalho pioneiro de Niède Guidon que a área ganhou projeção internacional. Nascida em Jaú, interior de São Paulo, filha de pai francês, a arqueóloga chegou ao Piauí na década de 1960, onde iniciou pesquisas que transformariam o entendimento científico sobre a região.
Ao longo de mais de cinco décadas de atuação, a arqueóloga liderou pesquisas fundamentais, ajudou a estruturar políticas de preservação, a consolidar instituições de pesquisa e a articular ações sociais que impactaram profundamente o território. Sua atuação extrapolou os limites da ciência e alcançou dimensões sociais, educacionais e culturais que ainda hoje moldam a realidade local. Niède faleceu em 2025, deixando um legado que ultrapassa os limites da arqueologia.
As homenagens recentes, mais do que reverenciar sua trajetória, evidenciam a continuidade de um projeto que segue em construção. A memória da pesquisadora permanece viva não apenas nos registros científicos, mas nas práticas cotidianas que articulam preservação, educação e desenvolvimento local – um legado que atravessa gerações.
Hoje, a Serra da Capivara permanece como referência internacional em arqueologia, articulando pesquisa científica, conservação ambiental e iniciativas voltadas ao turismo cultural. Nesse processo, a proteção do patrimônio se entrelaça com o fortalecimento dos vínculos com as populações que historicamente habitam a região.
A condução desse trabalho passa por trajetórias profundamente conectadas ao território. Entre elas, a da atual chefe do Parque, Marian Helen da Silva Gomes Rodrigues, nascida na região e com uma vida que atravessa as transformações do próprio território.
Filha de uma das famílias impactadas pelo processo de criação do parque, Marian iniciou sua trajetória em projetos de educação voltados às comunidades locais, atuou em iniciativas culturais e seguiu formação na área de arqueologia e patrimônio. Ao longo de sua história, manteve como eixo central a relação entre ciência e território – entre o conhecimento produzido nos sítios arqueológicos e a vida das pessoas que convivem com esse patrimônio.
“Eu acredito que estando aqui hoje como chefe do parque, estou representando a ancestralidade desse povo que sempre esteve aqui”, diz Marian Rodriguez, chefe do Parque.
A relação com Niède Guidon atravessa sua história desde a infância. Ainda menina, Marian acompanhava a presença da arqueóloga na região, sem compreender totalmente o alcance de seu trabalho, mas já reconhecendo sua força. “Sempre achei extraordinária essa mulher de calça chegar no meu povoado, procurando pessoas que pudessem levá-la à Serra da Capivara para estudar o que ela chamava de tesouro”, lembra.
Se, naquele momento, o “tesouro” parecia algo distante da realidade das crianças da comunidade, com o tempo ele se revelou como parte fundamental de uma história coletiva e também como possibilidade de transformação.
Para além da produção científica, o legado de Niède também se manifesta nas mudanças sociais promovidas na região, especialmente na ampliação do papel das mulheres nas atividades ligadas ao parque e ao desenvolvimento local. De acordo com a integrante do Conselho Consultivo Fiscal da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), Fátima Barbosa, antes da chegada de Niède, muitas mulheres não tinham acesso ao trabalho e dependiam integralmente de seus parceiros para sobreviver, o que frequentemente as colocava em situações de vulnerabilidade.
Com a estruturação do parque e das atividades associadas, mulheres passaram a ser incorporadas em diferentes funções, em um movimento que contribuiu para transformar não apenas as condições econômicas, mas também as dinâmicas sociais da região.
Como resultado desse processo, a presença feminina hoje é visível em diferentes espaços do território. Da recepção de visitantes à condução de pesquisas, da gestão de empreendimentos ao trabalho nas comunidades, mulheres ocupam posições centrais em uma dinâmica que foi, em grande medida, impulsionada pelas ações iniciadas ainda nas primeiras décadas de estruturação do parque. “As sementes plantadas germinaram. A comunidade se organizou e se desenvolveu com dignidade para assumir o futuro do parque e da região”, destaca Fátima.
Para além da inserção no mercado de trabalho, essas iniciativas contribuíram para ampliar a autonomia econômica das mulheres e fortalecer sua participação na vida social das comunidades. “A autonomia econômica, associada ao fortalecimento da autoestima e à maior participação social, contribuiu para que muitas mulheres tivessem mais condições de enfrentar situações de violência”, explica Marian.
Entre homenagens e continuidade, o Parque Nacional segue como um território onde passado e presente se entrelaçam. Um lugar em que a ciência não se dissocia da vida, e onde a preservação do patrimônio é construída coletivamente – sustentada por gerações de mulheres que transformaram conhecimento em cuidado e memória em futuro.
Homenagens reforçam legado de Niède Guidon
As homenagens recentes à arqueóloga Niède Guidon reuniram pesquisadores, autoridades e moradores da região no Parque Nacional da Serra da Capivara, em um momento marcado por memória, reconhecimento e emoção. Realizadas no mês em que se celebra o aniversário da pesquisadora, as iniciativas reforçam não apenas sua trajetória científica, mas também sua dimensão humana e o impacto de sua presença no território.
Um dos marcos da programação foi a inauguração de um totem em homenagem à arqueóloga, instalado no parque. A peça foi produzida e oferecida pelo Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba e simboliza a permanência de sua história no lugar onde dedicou grande parte de sua vida.
O evento contou com a presença do governador do Piauí, Rafael Fonteles, além de representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de instituições de pesquisa e preservação do patrimônio. Durante a cerimônia, Fonteles destacou a importância de Guidon para o estado e para o Brasil, ressaltando seu papel na valorização do patrimônio arqueológico e na projeção da Serra da Capivara no cenário internacional.
A programação também incluiu o lançamento de uma edição especial da revista Sapiência, publicada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi), dedicada à trajetória da arqueóloga. A publicação reúne parte de sua produção científica, além de registrar sua atuação na preservação dos sítios arqueológicos e na formação de pesquisadores.
Mais do que destacar sua contribuição acadêmica, tanto o evento quanto a revista evidenciam o papel de Niède Guidon na transformação social da região. Ao longo de décadas, sua atuação esteve diretamente ligada à criação de oportunidades, à valorização das comunidades locais e à formação de gerações que hoje seguem dando continuidade ao trabalho iniciado por ela.

- Inauguração do totem em homenagem à Niède Guidon no Parque Nacional da Serra da Capivara reuniu autoridades, pesquisadores e representantes de instituições ligadas à preservação do patrimônio - Foto: João Allbert/Governo do Piauí
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