17 de abr. de 2022

Conheça à história da Mestra Artesã de Guanambi, consagrada pelo governo da Bahia; ela se destaca dentre os 16 únicos da Bahia

 


Você já parou pra analisar a sua produção de 40 anos de dedicação? Talvez não consiga enxergar a quantidade da produção, mas ver a dimensão do trabalho que foi espalhado por todo Brasil chegando ao exterior. Pois é, no dia 24 de março de 2022, às 17h, na Casa das Bonecas de Pano Guanambi, Luzia Torres de Matos fez uma retrospectiva da sua jornada de amor na produção das bonecas de pano quando foi consagrada com o título Mestra Artesã da Bahia para todo território nacional.

Ela recebeu das mãos dos coordenadores de fomento ao artesanato, Antônio Almeida e Leda, da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia, o título honorífico e a carteira nacional de Mestra Artesã, “por reconhecimento e notabilidade do seu trabalho de difusão das técnicas do seu ofício, contribuindo com a preservação da cultura, história e tradição, junto a comunidade que a legitimou na condição de detentora do saber fazer artesanal propagando ao longo das gerações”, assim afirmou o Governo do Estado.

Ao lado do seu parceiro de vida e produção, Hélio Matos, Luzia foi consagrada com a 16ª carteira de artesã da Bahia, sendo poucos aqueles que gozam do privilégio. Ladeada pelas autoridades: Eponina Gomes, vereadora, Maria Silvia Lilia, vereadora vice-presidente da Câmara, Victor Boa Sorte, secretário de Cultura, Esporte e Lazer, Nair de Fátima, ex-vereadora, Paulo Costa, vereador, amigas e amigos de jornada, Luzia agradeceu a comunidade de Guanambi pela parceria de muitos anos. “A carteira não é só minha, nem o título também não é só meu, meu marido que me incentivou a produzir os catadores de algodão, bonecos que nos levaram a ganhar notoriedade por representar o  artesanato de Guanambi por todo Brasil, foram eles (catadores) que nos levaram a esse título de Mestra Artesã”, compartilha Luzia, reconhecendo a participação do marido e dos artesãos da cidade.

Assista o vídeo, abaixo, da entrega do Título e carteira de Mestra Artesã para Luzia Torres.

Perfil e história da homenageada

Luzia Torres

Mulher sonhadora, humanitária, movida por uma força que se chama o bem para todos. 

Com a sensibilidade que é peculiar de uma artista, Luzia Torres de Matos, deixou aflorar sua paixão por bonecas nas aulas de educação artística com a Irmã Visitação, uma freira italiana, que lhe ensinou fazer bonecas, na Escola Santa Terezinha em Carolina-MA.

Luzia Torres, nasceu em 29 julho de 1954, em Carolina, ao Sul do Maranhão, à margem direita do rio Tocantins. Cidade conhecida pelas suas diversas cachoeiras e ponto de apoio para a visita ao Parque Nacional da Chapada das Mesas, onde se localizam diversas cachoeiras canyons.

Aos 17 anos, morando em uma cidade com apenas sete mil habitantes, sem muitas expectativas de vida para qualquer jovem, decidida, Luzia se aventurou em buscar o primeiro emprego, fez o concurso para a Embratel Telecomunicações e passou, se mudou para Imperatriz-MA. Mas o seu grande sonho era fazer o curso de serviço social. Saiu do trabalho e foi para São Paulo, capital. Ao chegar lá se matriculou em um curso preparatório para o vestibular. Para se manter, foi preciso procurar emprego e conseguiu. Viu o anuncio de um concurso para preenchimento de vagas na Cooperativa dos trabalhadores do Comercio em Geral de São Paulo. Fez o concurso e passou.

Foi neste segundo emprego que conheceu o grande amor da sua vida, Hélio Matos, natural de Caetité, mas residia em Guanambi. Após três anos de trabalho na Cooperativa, cansada do frio de São Paulo, Luzia acaba o namoro e volta para sua terra natal, Carolina-MA.

Com o passar de um ano em sua cidade, Luzia recebe uma visita inesperada, Hélio, que não aguentou a paixão e foi pedi-la em casamento aos seus pais. Houve a espera de um ano para o casamento, que aconteceu em 1982, logo após se mudaram pra Guanambi.

Luzia chega à Guanambi e passa a morar com a sogra. O Casal teve quatro filhos: Poliana Matos (1983), Wladimir Matos (1984), Inaiá Fernandes de Matos (1985) e Hélio Fernandes de Matos Filho (1986).  Nos dias atuais tem dois netos: Samuel e Rafael.

Ao chegar em Guanambi, começou a fazer bonecas de pano para ajudar nas despesas domésticas, enquanto procurava trabalho. Fez o maior sucesso. Confeccionava os personagens do Sítio do Picapau Amarelo e expunha na janela da casa, na Avenida Guanabara. Sua primeira cliente a fazer pedidos, foi Ione de seu Ivan, “me procurou e disse que era aniversario da filha e queria fazer umas bonecas de pano, mas só que eram uma coelhas, por estar no período da páscoa. Fiz e Ione empolgou, porque nos vestidos eu coloquei um bolso que servia pra colocar os ovos de páscoa”, conta sorrindo.

As bonecas eram a maior atração. “Certo dia, Roberta de Geraci do Colégio Nóbrega, encantada com as bonecas parou o carro, comprou e me perguntou se eu não tinha interesse em dar aula de educação artística no colégio, eu aceitei e dei aulas por quatro anos”.

Com o passar dos meses, Luzia, fez uma seleção para o REDA, consegue trabalho no FUNRURAL que logo foi extinto e se tornou o INSS, depois foi remanejada para a Secretaria de Saúde do Governo do Estado da Bahia, onde prestou serviço até 1984, por quase 14 anos.

Mas o seu sonho de montar um ateliê de bonecas perseverava, “eu sempre falava “quando eu me aposentar, vou fazer minhas bonecas de pano”.

Em 1984, Luzia Torres realiza o maior sonho da sua vida, que foi a aquisição da casa própria, através da URBIS Bahia S/A, no primeiro bairro popular de Guanambi, BNH. “A maior felicidade da minha vida foi quando entrei na minha casa, o espaço era bem pequeno, tivemos que serrar o criado mudo que era preso a cama para poder colocar no quarto”, revela.

Luzia e Hélio foram o terceiro casal a se mudar para o bairro, projetado apenas com casas. Mais um grande desafio pra sua vida.

O casal montou um barzinho no centro da cidade, o Alcobar, e todas as noites, vivenciavam as dificuldades  da distância. Iam de bicicleta e voltavam para casa às 3 da manhã com uma filha pequena.

Com muita experiência no setor de contabilidade proveniente do trabalho da cooperativa de São Paulo, em 1987, devido as dificuldades existentes no Bairro BHN, por não possuir telefone público, escola, creche, posto de saúde e segurança, o casal resolve fundar uma Associação para unir os moradores e buscar melhorias para o bairro. 

Agora como presidente da Associação, Luzia, procura os responsáveis pela URBIS – Urbanização da Bahia S/A e consegue uma casa, que foi transformada em escola, com a ajuda dos voluntários do bairro e o apoio do Prefeito Geileno Donato em viabilizar os professores. Uma grande conquista.  “Fizemos um mutirão com pedreiros, campanha dos blocos, ampliamos a escola, com duas salas para os alunos e sala para guardar a merenda escolar”, diz Luzia. 

Logo após a conquista partem para conseguir uma creche. Procuraram Dr. Calmito de Igaporã, presidente da URBIS, em Salvador e ganham um terreno para construir um grupo escolar com a creche para as crianças.

O prefeito Gileno Donato, se comprometeu em viabilizar os professores e construir o grupo escolar, e na data marcada iniciou as obras. “Um homem de palavra”, elogia Luzia. Após a escola e a creche prontas, buscaram a LBA em Salvador-BA, para conseguir o material didático permanente e brinquedos.

Luzia não pára, surgiu o programa do leite, e também foi implantado para o BNH. Construíram a sede do Clube de Mães Abelha Rainha para administrar o programa do leite. O clube continua ativo até hoje.

Em seguida partiram para viabilizar o Posto de Saúde, “foi no período que estava sendo construído o Plano Diretor de Guanambi, e nós por estarmos enquanto associação organizados, exigimos o Posto de Saúde e conseguimos”, revela Luzia.

Em 2004, Luzia tem a sua saúde abalada por problemas cardíacos, faz cirurgia do coração em Brasilia-DF, no hospital de Base e recebe orientações médicas para repouso, um trabalho mais leve, foi quando retornou a fabricar as bonecas de pano Guanambi. 

Em 2016, reativou o Projeto Bonecas de Pano Guanambi, com a festa do grupo de mães da abelha rainha. “Fiz as bonecas como lembrancinha, e  a partir daí, partir para conquistar o espaço da Casa das Bonecas de Pano Guanambi”, que está prestes a ser inaugurada.

Outro grande sonho de Luzia, é fazer uma festa no dia das crianças e dar uma boneca de pano para cada criança do seu bairro como retribuição a Deus pelos seus 65 anos.

As  Bonecas de pano Guanambi ganharam selo ‘A Bahia Feita a Mão’ em 2013, com criação da boneca negra e da boneca branca. Em 2016, houve a conquista do selo ‘O catador de algodão Guanambi’, reconhecido como artesanato regional e estadual.

O selo é uma certificação do artesanato com padrões de qualidade estabelecidos por um Conselho, que é composto pelo SEBRAE, o Instituto de Artesanato Baiano, a Secretaria do Trabalho Emprego e Renda, e do Ibametro, que avaliam a qualidade do artesanato baiano, sendo rastreados cada peça para saber para onde foram vendidos.

Em 2019, Luzia Torres, recebeu o título de ‘Mestre Artesã da Bahia’, através dos bonecos: catador(a) de algodão, representando uma lembrança da Bahia. Poucos artesãos tem esse título, conquistado com perseverança e dedicação na produção das ‘Bonecas de Pano Guanambi’, porém o título e a carteira só foram entregues em 24 de março de 2022, devido à pandemia.

Em setembro de 2019, o catador(a) de algodão foi para São Paulo para a Feira do Artesanato como lembrança da Bahia.

A carteira de artesã para Luzia Torres, possibilita isenção de imposto para negociar seu artesanato no território nacional.

Segundo Luzia, o momento marcante da sua produção foi o nascimento da  boneca negra, que se tornou o símbolo da Bahia, valorizando a raça negra e quebrando preconceitos.

O ateliê, tem a capacidade de produção mensalmente cerca de 150 a 170 bonecas. Quando ocorre a terceirização chegam a uma produção de 260 bonecas por mês, fato ocorrido em 2018 com o show de Roberto Carlos, na Costa do Sauípe.

A ‘Casa das Bonecas de Pano Guanambi’ inaugurou em 14 de junho de 2021. De acordo Luzia, esse sonho se tornou realidade para ser ponto de referencia do artesanato na região e para dar cursos mantendo o artesanato vivo na  história.

A ‘Bonecas de Pano Guanambi’, também faz aluguel para eventos do Catador(a) de algodão.

Luzia Torres, mulher sonhadora, humanitária, movida por uma força que se chama o bem para todos. 

 

Edição: Neide Lu (MTBE 6466), Portal Fala Você Notícias

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