O LAJEDÃO E OS FANTASMAS DA HISTÓRIA
Por José Roberto Teixeira
Bem antes de virar bairro e símbolo de problema urbano, nosso Lajedão foi tapete para os pés de uma cidade que ía à Fonte; de um povo que tinha o prazer de buscar água, cantarolar pelas estradas, contar causos pelos caminhos e nas ídas e voltas, encontrar amigos.
Costumava-se dizer que Guanambi se encontrava no caminho da fonte – era uma prazerosa viagem. Coroadas com rodilhas de pano e sobre elas a lata d´água, mulheres de todas as matizes, maravilhosamente mulheres na labuta, tingiam de vida e graciosidade o carreirinho desbotado sobre o lajedo, de tanto passar gente, porque ninguém tinha água encanada e todo mundo ía à fonte.
A imensa bacia aberta na rocha era salvaguarda de beber, quando engrossava a água da Lagoinha; era água boa, doce límpida do caldeirão, guardada a zêlo e cuidado da população. Uma forte muralha, erguida com pedras, um portão de ferro, era o sinal que impunha respeito e todo mundo já sabia que tinha que encher as vasilhas sem pôr o pé na água.
Em meio a aridez dos tempos e a escassez de água, nos deram o Lajedo Novo, que de novo tinha apenas o caminho liberado, a cerca aberta e ordem de “pode entrar, é água limpa e de beber!”; as outras fontes já não davam conta, sinal que a cidade crescia. Houve um tempo que ela cresceu tanto que invadiu o lajedo, engoliu a estradinha desbotada, o muro de pedras caiu e no lugar de água límpida e cristalina, apareceu o lixo, muito lixo, rejeitos de um tempo novo e impiedoso. A ordem política mesquinha e cruel reservou chão de terra firme para alguns e para os pobres um fatia de lajedo para construir suas casas e eternizar seus sacrifícios. Uma frase ficou cravada no tempo quando alguém perguntava: Mas, construir a casa em cima do lajedo? – “Estão pegando o boi, porque é de graça!” diziam. Assim o lajedo foi fatiado, virou bairro e o lajedão aterrado.
O Lajedo Novo sobreviveu a muitas intempéries, cheias e secas cruéis, servindo aos germes de muitas eras com sua água verde e imprestável, recebendo animais mortos, engordando muriçocas e desafiando a vigilância. A enorme poça de água suja, aos pés da enorme rocha arredondada, tornou-se poço de banho de bêbados e andarilhos que desafiavam o perigo e muitos alí sucumbiram; foi causa de febre para as criancinhas dos arredores e razão do grito desesperado dos moradores que por décadas clamavam por uma solução.
Fotos: Ascom PMG
Agora o Lajedo Novo está verdadeiramente novo, virou praça e pista de caminhada; sinal dos tempos! - sinal de que alguém compreendeu que nada, nem as coisas ruins podem resistir, a força de um olhar e da boa vontade de quem é capaz de ver beleza onde só há degradação. O sonho da transformação é que nos move; a realidade é o que temos, mas é sábio quem é capaz de transformá-la para o benefício de todos.



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