TEODORO SAMPAIO (1879-80): Expedição Histórica no Velho Chico e na Chapada Diamantina
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”
A leitura do livro “O Rio
São Francisco e a Chapada Diamantina” de autoria do Dr. Teodoro Sampaio
(1879-1880) destaca trecho de um diário de viagem do sábio engenheiro que saiu
do Rio de Janeiro e chegou até o Rio São Francisco na cidade de Penedo no
estado de Alagoas.
Os primeiros capítulos do
diário retratam as belezas do Velho Chico e revela o rio como um oásis no
deserto, através dos sertões da Bahia ao Ceará, de Pernambuco ao Piauí - Terra
da Promissão e do refúgio dos povos assolados pela seca prolongada.
Seguindo viagem, Teodoro
Sampaio passou de Penedo a Piranhas (Alagoas) de vapor e nas suas andanças
relata as belezas da Pedra do Sino e chega até a Cachoeira de Paulo Afonso na
Bahia. Conjunto de queda d’águas localizada no Rio São Francisco, na altura do
município de Paulo Afonso.
Deixando a cachoeira de
Paulo Afonso, passou por Volta Grande, povoado de Pernambuco, e pelo rio
Moxotó. Seguindo viagem chegou até o Quixaba na Serra do Tacaratú e no Pico da
Quixaba, finalizando a jornada no município de Jatobá. Passou pelo Atalho e até
a cachoeira de Itaparica e da Volta Grande.
Seguindo viagem pelas águas
do Velho Chico passou em Boa Vista e Capim Grosso até chegar em Juazeiro –
Bahia e Petrolina – Pernambuco. Alcançou a Cachoeira de Sobradinho e as Salinas
de Casa Nova, Pilão Arcado, Barra, Barreiras – Rio Grande e Rio das Ondas,
Serra de Assuruá. Na cidade de Barra visitou a igreja matriz, prédio da câmara
municipal e o teatro. De Barra a cidade histórica do Urubú (atual Paratinga),
registra em desenho a famosa árvore barriguda, bem como a velha igreja de Santo
Antônio e de Nossa Senhora do Rosário (Século XVIII) – imagem do Senhor Morto.
De Urubú passou por Sítio do
Mato até chegar no Santuário de Bom Jesus da Lapa “Serrote da Lapa” – cidade
dos milagres e do Senhor Bom Jesus da Lapa. O objetivo era penetrar no interior
da Bahia em direção de Monte Alto, de Riacho de Santana e Macaúbas. Chegou até
a antiga Vila de Carinhanha – terra do algodão, navegando pelo Rio Carinhanha
onde passou pela Parateca e conheceu o Pontal, o povoado de Malhada até chegar
na divisa com Minas Gerais – Rio Verde Grande rumo a cidade de Manga.
Em Manga, não deixou de
registrar as brigas políticas e o coronelismo “Os Jagunços do Neco” – era um
verdadeiro estado de guerra (Povoado do Jacaré). Passou por Januária e pelo alto da linda Serra
do Brejo Salgado até chegar a cidade de São Francisco – antiga vila das Pedras
dos Angicos.
Seguindo viagem, chegou na
barra do Rio Paracatú – Porto do Faustino rumo a famosa cidade mineira de Pirapora
– corredeiras da Cachoeira de Pirapora. Avistou o Pico da Serra da Manga – Rio
São Francisco, próximo do Rio das Velhas na Província de Minas Gerais.
Conhece a Serra do Espinhaço
e retorna até a cidade de Carinhanha – a meta da viagem é chegar até a Chapada
Diamantina.
Viagem
através da Chapada Diamantina (1879)
No vapor Presidente Dantas,
Teodoro Sampaio retorna para Carinhanha em 22 de dezembro de 1879, com o
objetivo de percorrer de conhecer a caatinga e sertão baiano rumo a Chapada
Diamantina – registra mais uma vez o terror da política do coronelismo nas
vilas Carinhanha e de Malhada.
Seguindo viagem rumo Monte
Alto, passou pela Fazenda Thomé Nunes, na Lagoa do Mocambo e ao lado da Serra
da Malhada – riacho do Bom Olho e Fazenda do Juazeiro do Senhor Atílio José
Pereira – muito gado e produção de queijo e requeijões (Rio dos Currais).
Passou pelos povoados da Parateca (muito surubim), Curralinho e Canabrava. Rumou
para o riacho do Pé da Serra ou da Casa Velha, descendo até a Serra de Monte
Alto – Rio das Rãs em direção a Monte Alto.
Do riacho do Pé da Serra,
passou pelo Pau do Espinho até a Fazenda do Mija-Fogo, deparando mais uma vez
com os jagunços do Neco (Manga/MG). Do riacho da Casa Velha rumo a Serra de
Monte Alto, passou pela fazenda das Campinas do Senhor Capitão Lucio de Souza
Pinto. Registra com desenhos a Montanha de Monte Alto vista do Mija-Foto, as
pedras da Fazenda Três Irmãos e a Serra de Malhada, vista de Monte Alto. Passou
dois dias em Monte Alto e deixou registrado as belezas dos paredões da Serra
Geral, rio das Rãs, as lapas e cavernas, gruta do Conde dos Arcos e o riacho de
Monte Alto.
De Monte Alto a Caetité (30
de Dezembro de 1879), rumou até a Fazenda Três Irmãos, onde deveria retomar a
estrada geral da Bahia “Estrada Real”. Segundo Alceu Badaró o nome Três Irmãos
é originário da propriedade pertencer aos irmãos...
Teodoro Sampaio registra as
belezas do três grandes blocos de granito e dos caldeirões, destacando os
achados de ossadas de preguiças gigantes “foram encontradas gigantescas ossadas,
de que ainda vimos uns fragmentos, parecidos com os restos de um fêmur de
Megatherium”. Segundo o engenheiro, nas Fazendas do Campo Grande, Lagoa da
Pedra, Santa Rosa e Três Irmãos descobriram-se grandes ossadas fosseis.
Registra também em desenho,
as belezas do serrote do Pau d’Espinho e do rio das Rãs e do rio Carnaíba de
Dentro, bem como o mapa histórico da região (Fazenda Lagoa do Pato, Fazenda do
Caldeirão, Mata Verde, Serra De Monte Alto, Vila de Beija-Flor (atual Guanambi
que pertencia a Palmas de Monte Alto), Riacho dos Brindes – Guanambi, Gentio
(Ceraíma), Umburanas, Caetité, Riacho de Santana, Bonito (Igaporã), Livramento,
Caculé, entre outros municípios.
Teodoro também pernoitou na
Fazenda do Paga-Tempo do coronel Porphirio Pereira de Castro e na Fazenda Lagoa
da Pedra, bem como na Fazenda Boa Vista do Major Francisco Pereira de Castro.
Passou pelo Serrote do Pajeú na vila de Beija-Flor (figura de um elefante
gigantesco em posição de repouso – sítio arqueológico de Guanambi), localizado
nas proximidades dos rios Carnaíba de Dentro e de Fora na Fazenda Capim da Raiz
e da Fazenda do Boqueirão. Registrou a criação do gado bovino em larga escala
com sua rudimentar indústria dos laticínios.
Seguindo viagem, passou pela
Fazenda da Pintada, povoado do Brejo e destaca que avistou uma bela cascata de
cerca de 25 metros de queda do Rio Carnaíba de Dentro.
Seguiu viagem rumo a
Caetité, passando pela Fazenda Hospício e pelo povoado do Paraguay e chegando a
Fazenda Escadinhas do Senhor João Antero Ladeia Lima em 1º de Janeiro de 1880.
Em Caetité, demorou quatro
dias, durante as festas de Reis, visando prosseguir até à Chapada Diamantina.
Destaca-se o clima frio da região e a produção de todas as frutas da Europa,
inclusive a tentativa da produção de trigo da Fazenda Cajueiro do Major
Francisco Pereira de Castro. Visitou o mercado e a feira bastante movimentada
de Caetité com a produção de requeijões, couros e outros produtos da indústria,
pecuária, abundancia de legumes, batatas inglesas, batatas doces, inhames,
hortaliças, aboboras, melões excelentes, melancias, amendoins, milho, arroz,
feijão, rapadura, açúcar, farinha de mandioca (produção da freguesia de
Umburanas, nos distritos dos Furados e de Caculé, no Rio do Antônio) – “Caetité
o celeiro provido deste sertões”.
Teodoro Sampaio, destaca-se
também a grande produção de mandioca, feijão, milho, arroz (Rio das Rãs e
Carnaíba de Dentro e de Fora – Gentio), algodão, cana-de-açúcar (produção de açúcar para o
consumo local e 50 alambiques para produção de mel, aguardente e rapadura),
fumo e café.
O engenheiro relata sobre a
riqueza da região de Caetité “Capital do Sertão” e a manada de gado bovino em
Bom Jesus das Meiras (Brumado) e das várzeas do Rio São Francisco, bem como da
criação de suíno (toucinho) de Caculé, Furados e Mata Veado. Na agricultura,
destaca-se a irrigação em larga escala e a produção de arroz amarelo, cana e
trigo, bem como os produtos naturais do solo, madeira (jacarandá, pau d’arco,
cedro, cabriúva, jatobá) para construção e metais preciosos e rochas. Os
minerais (ouro nas Lavras do Paty, e léguas a Este de Umburana, no Brejos dos
Padres nas cabeceiras do rio das Rãs, 2 léguas a Oeste-Sudoeste de Caetité).
Destaca-se também o ferro em quase toda a Serra Geral; as excelentes ametistas
em Brejinho e na Serra dos Saltos; e o cristal encontrado na fazenda do
Espirito Santo do Major Antonio Xavier Cotrim.
Teodoro Sampaio destaca o
papel histórico do município de Caetité – corte do sertão, localizado entre a
vila da Minas do Rio de Contas e a vila de Montes Claros (Bom Jesus dos Meiras
– Brumado, Maracás, Sincorá, arraial dos Morrinhos, freguesias de Umburanas e
Duas Barras – Urandi e Pindaí, Macaúbas, Paramirim, Urubu – Paratinga, Bonito –
Igaporã, Riacho de Santana, bom Jesus da Lapa, Monte Alto, Carinhanha, entre
outros) – A CAPITAL DO SERTÃO.
Segundo Teodoro, cidade boa
e sociedade culta, muita urbanidade e delicadeza do povo. As festas de Reis
muita animadas. A cidade de Caetité devia ter 8 mil habitantes, 27 mil
habitantes na freguesia e 50 mil habitantes na comarca. Ruas calçadas,
arborizadas com palmeiras, casas bem construídas e com água encanada, quadro
igrejas (matriz) – obra dos antigos jesuítas, paço municipal e cadeia, teatro e
cemitério.
De Caetité a Minas de Rio de
Contas, Teodoro Sampaio deixa registra o mapa com o Pico das Almas, Pico do
Boqueirão, rio do Santo Onofre, Serra Geral, Valle do Brumado, entre outros
aspectos geográficos – Mineração de ouro e pedras preciosas.
De Minas do Rio de Contas à
Santa Isabel do Paraguassú, antigo arraial do Mucugê: Serra da Tromba, Serra do
Gagau, e Serra do Sincorá – centro principal das lavras de diamante na Chapada
Diamantina (13 de janeiro de 1880).
Na Chapada Diamantina,
Teodoro Sampaio destaca a importância das cidades de Andaraí e Lençóis e a
exploração de diamantes. Faz um relato sobre dos antigos coronéis da região (Coronel
Joaquim Manoel Rodrigues Lima - Caetité *, outros coronéis e diversos
proprietários das lavras mais prosperas).
(*) Joaquim Manuel Rodrigues Lima (Caetité, 4
de maio de 1845 — 18
de dezembro de 1903) foi um médico e político brasileiro, que serviu na Guerra do Paraguai,
foi intendente da cidade natal e governou o estado da Bahia. Fonte: Wikipédia, a
enciclopédia livre.
Visita à lavra da Nova
Siberia ou Mattinha, no Rio Paraguassú (15 de Janeiro de 1880) – Torre no Vale
do Mucugê. De Santa Isabel a São Felix – Rio Una. Percorreu o Valle do Mucugê e
pousou na Lapa da Maxambomba, caverna com desenhos nas paredes com figuras
imitando animais e homens pintadas com tinta vermelha (sítio arqueológico).
Teodoro Sampaio relembra da expedição de Robério Dias (1735) no sertão da Bahia
em busca da minas de prata.
Seguiu viagem pela Estrada
Real do sertão – De Santa Izabel a São Felix. Segundo Teodoro “Uma vez na
estrada geral que leva a São Felix e à Bahia, estava de facto terminada a nossa
travessia pela Chapada Diamantina e finda a nossa principal missão neste
sertões”.
A história dos municípios de
São Felix e Cachoeira é um capítulo à parte que o BLOG DO LATINHA vai registra.
SÃO FÉLIX – BAHIA
Cachoeira e
São Félix - Cidades-irmãs
“São Félix fica à margem direita do Rio
Paraguaçu, a 110 km de Salvador. Surgida durante a expansão da
cana-de-açúcar, a cidade possui uma história profundamente ligada aos valores
culturais baianos. Marcada pelo desenvolvimento da indústria fumageira, com a
instalação das fábricas de charutos Suerdieck, Dannemann, Costa Ferreira &
Pena, Stender & Cia, Pedro Barreto, Cia A Juventude e Alberto Waldheis,
além do cultivo do dendê e um forte comércio de estivas, secos e molhados.
Também é conhecida por ter se destacado durante as lutas e mobilização social
para a Independência da Bahia.
Leia mais
na Wikipédia, a enciclopédia livre.
O Blog do Latinha, nos seus
quase 15 anos de existência e mais de 30 anos de estudos e pesquisas, busca
através de várias expedições e viagens resgatar a história e memória do sertão
baiano, através de registros fotográficos e documentais, viagens exploratórias
e publicações. Já percorremos cidades e regiões importantes da Bahia: Salvador
e Região Metropolitana, Vitória da Conquista, Baia de Todos os Santos, São
Félix, Cachoeira, Chapada Diamantina, Rio de Contas, Juazeiro, Petrolina - PE,
Bom Jesus da Lapa, Sítio do Mato, Caetité, Brumado, Guanambi, Palmas de Monte,
Livramento, Ituaçu, Tanhaçu, Mucugê, Lençóis, Andaraí, Igatu, Iuiú, Malhada,
Barreiras, Carinhanha, Feira da Mata, Candiba, Urandi, Matina, Pindaí, Lagoa
Real, Igaporã, Riacho de Santana, Vera Cruz, Itaparica, Serra do Ramalho,
Tanque Novo, Paratinga, entre outros municípios, comunidades tradicionais e
quilombolas, zonas rurais de diversos municípios, barragens, serras, parques
ecológicos, casarões e patrimônios históricos e culturais.
Aguarde
o próximo artigo sobre a história da EXPEDIÇÃO KRUSE
Nos meses de Novembro/202 e Fevereiro/2023, a empresa Flamboyant Conteúdo Criativo do guanambiense Matheus Boa Sorte e sua equipe, através dos profissionais Julia Fagundes Abrantes e Rodrigo Freitas, realizaram duas expedições com o objetivo de Diagnóstico do Potencial de Turismo de Palmas de Monte Alto e Sebastião Laranjeiras.
Na
oportunidade, conhecemos o brilhante trabalho das professoras e pesquisadoras
Carla Dias (Museu Nacional e UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Carla Susana Abrantes (UNILAB-CE), Jasmina Di Monaco (Rio de Janeiro) e Elma
Oliveira (Fortaleza-CE), que realizam uma importante pesquisa sobre a Expedição
Kruse (1940) do Engenheiro Hermann Kruse.
Segundo a pesquisadora Carla Dias, o arqueólogo alemão naturalizou-se brasileiro em 1926 e esteve em viagem pela Bahia e Minas Gerais em 1941 a 1945/1947, onde foi adquirir peças para a coleção do Museu Nacional como enviado do IPHAN. Hermann morou em Palmas e faleceu em 1947. Foi enterrado no cemitério de Palmas de Monte Alto.
“Quem mal
lê, mal ouve, mal fala, mal vê.”
Importância de Teodoro Sampaio
Teodoro Sampaio, filho de uma escrava negra, foi um dos maiores pensadores brasileiros de seu tempo. Engenheiro por profissão, legou-nos uma bibliografia de vasta erudição geográfica e histórica sobre a contribuição das bandeiras paulistas na formação do território nacional, entre outros temas. É formidável sua sofisticação na percepção da importância dos saberes indígenas (caminhos, mas não só) na odisseia bandeirante. Igualmente digna de consideração foi sua contribuição ao estudo de vários rios brasileiros, de pinturas rupestres em sítios arqueológicos nacionais, do tupi na geografia brasileira e da geologia no País. Neste campo, a geologia brasileira, participou de momentos marcantes, como a expedição de Orville Derby ao vale do rio São Francisco e de comissões específicas. Além disso, foi grande amigo de Euclides da Cunha, e auxiliou o escritor com conhecimentos sobre o sertão baiano na elaboração do livro Os Sertões.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
"Orgulho de seguir os caminhos
e as trilhas
por onde Teodoro Sampaio
e Hermann Kruse
realizaram estudos e pesquisas
sobre as belezas do nosso sertão
e do
Velho Chico ..."


































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