A DEMOLIÇÃO DO THEATRO CENTENÁRIO DE CAETITÉ
Foto: Luzmar Oliveira Luz
José Eustáquio Rochael da Silva Primo
Recentemente tive o privilégio de deparar-me com um artigo da ilustre caetiteense Luzmar Oliveira sobre o Theatro Centenário, cuja veia literária nos tem proporcionado agradável viagem no tempo à Caetité de outrora.
A prometi, na oportunidade,
tentar descrever minhas impressões sobre tal edificação, que tanto impressionou
e marcou àqueles que vivenciaram sua construção, esplendor e derrocada, fazendo
lembrar, não sei explicar porque, em parte e dimensões menores, a trágica
história do navio inglês Titanic, só que em nosso caso, sem vítimas,
felizmente, inobstante o ressentimento, até hoje latente, causado aos locais
com a sua demolição.
Como toda cidade antiga, as
ruas de Caetité eram pavimentadas com pedras grandes e irregulares, e o seu
conjunto arquitetônico, composto de casarios enormes, com uma infinidade de
janelas em seus frontispícios, estendia-se da Praça da Catedral à Rua Barão,
partes da Barroquinha, Largo da Feira Velha e Coréia.
Dentre as edificações destacavam-se
a Cadeia Pública, o Quartel da Polícia Militar, ou Guarda Municipal, não me
lembro bem, o Palácio Episcopal, o Colégio das Freiras, o Mercado Municipal, o
Sobrado do Sr. Dedeco, o Seminário São José, a Igreja Matriz, e ele, o mais
majestoso e imponente de todos, Theatro Centenário.
No estertor do seu brilho a
cidade já era dotada de um bom auditório, ainda hoje em funcionamento, localizado
nas dependências do IEAT, entretanto, os eventos culturais, exposições, e, até
mesmo esportivos, eram realizados no teatro.
A despeito da timidez que
assolou parte da minha vida, há muito superada, levando-me a declinar de
participações nas apresentações escolares lá realizadas, vivi fortes emoções no
seu palco quando de uma demonstração de artes marciais, na qualidade de aluno
da escolinha de Judô do Mestre "Padin" Abelardo, ser laureado com uma
diminuta medalha de latão, que para mim reluzia como ouro puro, por aplicar, em
um lance de sorte, um golpe (ippon) em meu adversário e sagrar-me vitorioso no
certame.
Em outra oportunidade,
conseguimos, eu, meus primos e outros tantos amigos, Marco Antônio, Venício,
Galdino Guanais e Diórgenes Azevedo, chegarmos à lateral do palco e assistirmos
a um show do impagável Waldick Soriano. Dada a proximidade que ficamos do
famoso cantor, tive oportunidade de observá-lo em detalhes e me chamou a
atenção o enorme sapato de bico fino que usava.
Também no teatro, ainda "pré-aborrescente,"
visitei uma exposição de bonecos de cera em tamanho real, denominada Os
Gigantes Ciclopes, que nada mais eram
que figuras mitológicas na Grécia antiga, representadas por monstros imortais
dotados de um único olho na testa. Em vista da perfeição e anomalia acentuadas
dos manequins, a visão assombrou por muito tempo os meus sonhos juvenis.
Corria os anos sessenta,
onde já era visível uma leve deterioração do prédio.
Lembro-me que algum tempo
depois, descobrimos uma janela quebrada no segundo pavimento dos fundos do
teatro, voltada para a antiga Escola Normal - já como sinal visível do abandono
a que estava condenado - pela qual ingressávamos em suas dependências, a fim de
brincarmos de bang bang (simulação das ações dos filmes de faroeste). Em média,
participavam da diversão entre vinte e trinta pré-adolescentes, sem repreensão
de quem quer que seja, até porque, não tinha mais vigia no local.
Nestas oportunidades,
percorríamos todas as dependências do prédio, onde era possível apreciar,
minudentemente, sua imponente arquitetura de camarotes e corredores
sobrepostos, ornados com grades de madeira ricamente trabalhadas, até hoje
arquivadas em meu subconsciente.
Como ato final da sinistra
peça, presenciei a demolição do prédio, cujo trabalhador clicado em plena
atividade de destruição, usando como ferramenta uma picareta, foi eternizada em
uma foto publicada no "face" do grupo Causos de Caetité, nada tinha a
ver com a decisão de eliminar parte do nosso patrimônio arquitetônico/cultural,
uma vez que soldado mandado, eu o conhecia. Era pai de um amigo meu.
A justificativa usada para a
demolição do prédio foi, pasmem! A construção de um estacionamento público...
quando a frota de veículos da cidade não chegava a uma centena deles. Os
contávamos a dedo.
Tanto o é, que um morador
local, ainda lá residente, de prenome Afrânio, meu colega na escola de Dona
Eurídice, localizada nos fundos da casa da professora Judite Cunha, tinha na
memória, prodigiosa, os números das placas, modelos e cores de todos eles.
Costumava descrevê-los sempre que perguntado.
Não sou dado a demonstrar
meus sentimentos, mas, naquele dia fatídico, as lágrimas foram inevitáveis.

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