10 de out. de 2022

CORREIO DA BAHIA: 'Pelos municípios e pelas mulheres': conheça a deputada estadual mais votada da Bahia


No último dia 2, Ivana Bastos (PSD) teve o maior número de votos entre homens e mulheres na Alba; ela não descarta ser candidata à presidência da Casa

Thais Borges

thais.borges@redebahia.com.br

A deputada estadual Ivana Bastos (PSD) lembra de tudo com riqueza de detalhes. Desde que decidiu que atuar na política era o que queria fazer na vida, foram três eleições para a Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) sem sucesso. Na primeira, em 1998, teve 15 mil votos. Quatro anos depois, passou dos 28 mil votos e chegou à suplência. O pleito de 2006 talvez tenha sido um dos mais dolorosos: com 34.361 votos, faltaram apenas 11 para conquistar a cadeira. 

Ela tentaria novamente quatro anos depois, em 2010. “Na quarta eleição, meu pai e meu marido disseram que, se não desse certo, tudo bem, que era a hora de parar. Mas eu disse que não ia parar”, lembra, em entrevista via Zoom, na última quarta-feira (6). Foi um dos momentos em que discordou do pai, o ex-deputado Fernando Bastos, hoje com 84 anos e que diz ser sua maior inspiração. Ivana bateu o pé porque acreditava que uma hora conseguiria. De fato, naquele ano, ela foi eleita pela primeira vez com 45 mil votos. 

Em 2014, recebeu 64 mil e já se tornou a mulher mais votada da Alba. Nas eleições de 2018, teve quase 77 mil - novamente, a mulher mais bem posicionada. “Eu brincava muito e dizia que essa agora seria o desempate. Perdi três pênaltis, ganhei três. Dizia que agora seria o gol de placa”. De fato, foi. Inclusive, foi bem mais do que até ela mesma esperava: no último domingo (2), Ivana foi a mais votada entre deputadas e deputados estaduais. 

Com 118.417 votos em 2022, ela também foi a primeira mulher a passar dos 100 mil votos na história do legislativo estadual. Em Guanambi, no Sudoeste baiano, onde mora, alguns apostavam que ela ultrapassaria a marca. A deputada, porém, se dizia mais pé no chão. Esperava superar a votação passada, mas ficar nos 88 mil, 90 mil.

“Dentro do meu coração, eu queria continuar sendo a mulher mais votada. Então, para mim, foi muita alegria. Foi o reconhecimento de um trabalho”, explica. 

Mulheres
Em suas redes sociais, Ivana se apresenta como “defensora dos municípios e das mulheres”. Foram essas algumas de suas principais pautas na Assembleia desde 2010. “Na Bahia, a maioria das leis direcionadas à mulher é de autoria nossa. Mas temos várias indicações da pandemia, o que estava dando certo em outros estados, a gente trazia para cá, como a instalação de câmeras termográficas”. 

Uma das leis de que se orgulha é a que obriga síndicos e administradores de condomínios a denunciar situações de violência doméstica e familiar. O projeto foi aprovado por unanimidade em 2020. Ela cita, ainda, a legislação que prevê que homem condenado por violência contra a mulher deve ser banido do serviço público. Outra é a de que mulheres podem amamentar em qualquer local no estado, que se tornou lei no fim do ano passado. 

“Eu estava assistindo na TV sobre uma mulher que amamentava no shopping e foi retirada pela polícia. Aquilo me assustou, porque é direito da criança até antes de ser direito da mulher. Colocamos a lei aqui na Bahia que a mulher pode amamentar onde quiser. É direito dela na repartição pública, no metrô, na feira”. 

Questionada sobre se considerar feminista, a deputada diz que sim. Não é 'daquelas aguerridas', mas é feminista. Cita, inclusive, o antigo colega Zé Neto (PT), hoje deputado federal. Quando era líder da maioria na Alba, Zé Neto dizia que Ivana era 'pior do que siri na lata' porque, quando queria algo, fazia 'barulho'. 

"Eu sou mãe de mulher. Então eu priorizo, brigo pelos direitos da mulher. Não sou de bandeira aguerrida porque não é o meu perfil. Eu não sou cabeça dura, você me convence, se tiver outra maneira. Agora, quando eu acho que é daquele jeito, eu só paro quando consigo", explica. 

Seu outro papel, segundo a própria deputada, é muito ‘municipalista’. Ela diz atuar ao lado dos municípios, levando as demandas de cada região, como o acesso à água ou a construção de alguma escola. “Às vezes, eu dizia que era despachante de luxo de prefeitos, porque não fazia outra coisa a não ser levar a pastinha para a secretaria cobrando. A resposta da minha votação é desse trabalho com os municípios”, avalia.

Presidente estadual do PSD, partido de Ivana, o senador Otto Alencar diz que ela tem ‘vocação natural’ para a política. Ele destaca justamente a militância forte que ela tem nos municípios que representa. “Ela é de Guanambi, mas teve votos na Bahia inteira e tem se esforçado muito, levado obras e investimentos para esses municípios. Na campanha de 2020 para prefeitos, ela trabalhou em muitos municípios e conseguiu até reverter quadros de pesquisa eleitoral que davam adversos, por essa militância. Ela nasceu para isso”.

Em algumas cidades, Ivana teve votação comparável a de uma chapa majoritária: em Lençóis, na Chapada Diamantina, ela levou 87,54% dos votos. Em Palmeiras, foram 70,89%, enquanto em Palmas de Monte Alto e Matina, ela teve 57,04% e 45,69%, respectivamente, de preferência dos eleitores. 

Nascida em uma família de tradição política em Guanambi, Ivana já tinha sido a mulher mais votada entre deputadas estaduais em outras eleições (Foto: Ascom)

Família
Ivana diz que o período de eleição costuma trazer algumas decepções. Por vezes, se deparava com alguma liderança que, depois de anos de trabalho conjunto, decidia apoiar outro candidato. “Cheguei a falar um dia com o senador Otto: será que vale a pena trabalhar tanto? Porque você não tem vida”, desabafa. 

Mais de uma vez, na conversa, ela reforçou que também é esposa, mãe e avó de dois. Ivana casou cedo: aos 18 anos, com Jaime Bastos, que, segundo ela mesma, não gosta de política. Ela, por outro lado, cresceu em uma família com tradição na área. Além do pai, seu avô, Juca Bastos, foi o primeiro prefeito de Guanambi. O tio Vilobaldo Bastos também foi deputado. 

Ainda assim, no início, quando quis ser candidata a vereadora, seu pai não concordava. Ele dizia que os amigos dele já eram candidatos. Até que, em 1996, ela tentou ser candidata à prefeita da cidade. Faltando 15 dias para a  eleição, ela conta que lhe tomaram o partido e retiraram a candidatura. 

"Eu já era casada, tinha filhos pequenos. Acho que se fosse meu irmão, teria tido mais apoio. Mas quando meu pai viu que era isso que eu queria, ele colou", conta. Daí em diante, Ivana virou a companheira do pai. Viajavam de Brasília a Salvador com frequência enquanto, aos poucos, ela construía o nome. "Eu era a filha do deputado Fernando Bastos. Hoje, ele brinca que é o pai da deputada Ivana Bastos". 

Os filhos não seguiram seu caminho. A filha Fernanda é dentista, enquanto o filho Jaime é engenheiro. Até levariam jeito, se quisessem, na avaliação dela. O pedido da mãe, porém, era que fizessem outras coisas da vida. 

“Moro em Guanambi, a 800 quilômetros de Salvador. Saio toda quinta de carro ou de ônibus, de Salvador, e retorno no domingo. Em Salvador, não paro um minuto. Meu gabinete não fecha antes das oito da noite. Por isso, eu questionei muito: será que vale a pena você trabalhar tanto? Mas se você trabalha, você faz, tem que ter esse reconhecimento”, reforça. 

Dificuldades
Ivana se orgulha em ser conhecida como “muito direta”. Não é muito afeita ao meio termo ou de enrolações. Para ela, ter esse perfil é uma das razões para ter conseguido ser presidente da União Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais (Unale), entidade que representa as Assembleias e os deputados estaduais do país. 

Houve presidentes de algumas casas pelo Brasil que se recusaram a sentar com ela para discutir demandas. “Não teria um deputado para resolver isso?”, questionavam, quando descobriam que se tratava de uma mulher. Não, não tinha. Para conseguir apoio à candidatura, visitou todas as assembleias legislativas do país. Pedia oportunidade, fazia compromissos. 

Acabou concorrendo como candidata única e foi escolhida em 2020.

“Costumo dizer que tudo comigo é um desafio maior. Entrei cheia de planos, cheia de sonhos, veio a pandemia”, recorda, citando a necessidade de adaptar os parlamentos às novas tecnologias. 

Do trabalho na Alba, veio a inspiração para outras leis estaduais. A lei que protege as mulheres vítimas de violência doméstica em condomínios foi levada para outros 22 estados. Ao mesmo tempo, ela encontrava ministros, discutia vacinas e outras demandas de deputados. Pela pandemia, a deputada acabou tendo seu mandato de um ano prorrogado na Unale, ficando até o fim do ano passado. 

Lidava com pressões de diferentes espectros políticos e bandeiras partidárias - de manhã,  alguns deputados pelo Brasil queriam algo; à tarde, outros deputados pediam ajuda em outra pauta. Ivana enfatiza que não podia tomar lado; sua função, ali, era defender o parlamento. Pela Unale, visitou a China em 2017, em um evento dos BRICs em que foi a única brasileira a falar.

“Quando eu estava lá, pensei ‘meu pai, olha onde eu cheguei’. Falo muito que meu pai é o ar que eu respiro. Ele é o grande incentivador e companheiro dessa jornada política”, diz. Ela se emociona ao lembrar que, há dois meses, o pai passou 15 dias internado na UTI. “Hoje, ele está bem e viu essa vitória nossa. Curtiu, sonhou, chorou”. 

Fiol


Uma de suas lutas é pela Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), cujo primeiro trecho, até Caetité, cidade onde a deputada nasceu, já está quase concluído. Ela presidiu, por oito anos, a comissão para tratar da Fiol e do Porto Sul. "Quero muito ver essa ferrovia funcionando, porque será a redenção da Bahia. Tem muita coisa boa vindo para a Bahia. A gente tem perspectiva de um futuro muito grande e eu peço muito a Deus para ver acontecer", acrescenta. 

Em 2023, Ivana não descarta se candidatar à presidência da Alba, se for um consenso de seu partido. Hoje, o presidente da Casa, o deputado Adolfo Menezes, também é do PSD, e outros deputados eleitos também têm feito o movimento de colocar seus nomes. 

"Fui a primeira mulher a participar da mesa-diretora, como segunda vice-presidente. Nunca teve uma mulher presidente na Assembleia. Não é justo dar uma oportunidade a uma mulher? Meu nome está aí e depende do meu partido, do nosso grupo político. Mas, se depender de mim, estou lá", completa. 

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