Biografia conta a história de um dos políticos mais influentes do País

A TARDE

Patrícia França
  “Os dois, deitados,
escondidos na cabeceira
da pista do Aeroporto
de Brasília. Ao lado
deles, Rubens Paiva.
  Às quatro da manhã,
movimento nenhum. Até nele, no barulho suave do mato ralo em que
estava deitado, Waldir prestava atenção.
Ouvidos atentos, olhar vigilante.
  Tensos, ele, Darcy e
Rubens não se mexiam”.
Os três primeiros parágrafos do livro Waldir Pires –  Biografia  (vol.1), de autoria do jornalista e escritor Emiliano José, a ser lançado às 17 horas da próxima quinta-feira (14) no Palácio Rio Branco, dão uma ideia do clima de tensão e incertezas que rondavam aquele sábado de abril de 1964, quatro dias após o golpe militar que depôs o presidente João Goulart do poder. 
Ex-Consultor Geral da República do governo deposto, Waldir não teve alternativa senão fugir com Darcy Ribeiro,  chefe da Casa Civil. A ideia inicial era ir para Porto Alegre, como previa o plano de voo feito pelo então deputado Rubens Paiva (que viria a ser cassado dias depois), e participar  da resistência ao lado de Goulart.
O cerco dos militares na capital gaúcha mudaria os planos. Na mesma noite daquele 4 de abril, Goulart desembarca no aeroporto de Montevidéu, no Uruguai, e pede asilo político. No dia seguinte, a bordo de um monomotor movido a gasolina de caminhão, Waldir e Darcy  pisam em solo uruguaio. Começava ali o exílio de seis anos de Waldir , que também morou em Paris, onde lecionou na Faculdade de Direito da  Universidade de Dijon e no Centro de  Altos Estudos  da América Latina da Universidade de Paris, junto com  Celso Furtado.
 “Foram  os últimos a deixar o Palácio do Planalto naquela madrugada de 2 de abril. O golpe entrou por uma porta para tomar posse – a presidência do STF, presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli.... – e os dois (Waldir e Darcy) saem por outra....”, descreve Emiliano, que por seis anos se desbruçou em pesquisas, documentos, depoimentos, fotografias e redação. 
Este primeiro volume  cobre o período que vai de 1926, ano do nascimento de  Waldir em Acajutiba (BA), até o final de 1978, em pleno regime de exceção, quando termina a vigência do Ato Institucional nº 5, e ele se dispõe a sair  do Rio de Janeiro e voltar para a Bahia para encabeçar a luta política. Isso foi em 12 de janeiro de 1979, início do segundo volume biográfico, em fase de revisão, e que se estende até os dias atuais.
Publicado pela Versal Editores e com orelha assinada por Dom Emanuel d’Áble do Amaral, arquiabade do Mosteiro de São Bento – um dos símbolos da resistência contra a ditadura na Bahia –, o livro descreve a infância em Amargosa, passa por Nazaré das Farinhas, onde ele cursa o ginásio no Clemente Caldas; o Colégio Central, onde faz o Clássico; e a Faculdade de Direito da Ufba, sendo o orador da turma de 1949.
Aos 24 anos, Waldir  é nomeado secretário  do governo Regis Pacheco (1951/55), indicado por  Antonio Balbino, espécie de seu preceptor na vida política. Balbino depois se elege governador e Waldir, deputado estadual, sendo seu líder na Assembleia Legislativa. O livro mostra, ainda, a eleição de deputado federal em 1958 pelo PSD, a campanha ao governo em 1962 e a derrota para Lomanto Júnior; a passagem como professor da UnB e sua atuação como Consultor-Geral do governo Goulart.
Emiliano explica que nesta função Waldir  ocupou um papel essencial. “Foi um dos sustentáculos teóricos e jurídicos de programas defendidos pelo ex-presidente, como a reforma agrária, a nacionalização das minas de ferro, e o monopólio da importação do petróleo”.
Amigo há 40 anos de Waldir, que completa 92 anos em outubro, Emiliano  diz que esta condição não o impediu de exercitar a veia crítica. No segundo volume, por exemplo, avisa que não se furtou a abordar  um dos episódios mais controversos da trajetória politica do hoje petista: a renúncia ao governo da Bahia, em 1989, para disputar a vice-presidência da República na chapa do PMDB encabeçada por Ulisses Guimarães.
“Foi o maior erro da vida dele, inegavelmente”,  afirma Emiliano, ao se referir à entrega do mandato de governador ao vice Nilo Coelho,  depois da vitória estrondosa sobre o arquiinimigo Antonio Carlos Magalhães (ex-PFL) que dominou a Bahia por quase 40 anos.

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