Ana Júlia Ribeiro: "A gente quer um ensino que dê voz aos estudantes"

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Instituto Itaú/Divulgação
  
A aluna do 2º ano do Colégio Estadual Senador Manoel Alencar Guimarães, em Curitiba, discursou na Assembleia Legislativa do Paraná. Palavras que viralizaram e renderam até uma ligação do ex-presidente Lula se dizendo emocionado com a coragem da jovem.

Ana Júlia defende pautas como a não aprovação da Medida Provisória 746 (a reforma do ensino médio) e da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55. Na última semana, ela atendeu jornalistas em entrevista coletiva após palestrar no Seminário Internacional Desafios Curriculares do Ensino Médio, na capital paulista. O evento foi organizado pelo Instituto Unibanco e pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).


O Povo - Quais os principais problemas você vê na MP da reforma do ensino médio? O que os estudantes querem mudar? Tem alguma coisa boa na MP?
Ana Júlia - A Medida Provisória tem propostas boas. Mas elas não foram estudadas, não foram bem elaboradas e vão trazer problemas no futuro próximo se elas forem colocadas em prática desse jeito. Um dos principais pontos em que vemos problema é a questão do professor com notório saber, que é uma coisa que não se pode simplesmente aceitar. Tem a questão do ensino integral, que não condiz com a nossa realidade social atualmente. Ele é uma boa proposta, mas tem que ser visto se isso realmente atende à necessidade da população.

O senso comum questiona muito se as ocupações são partidárias ou não...

Os alunos têm a liberdade política preservada. O indivíduo tem a liberdade política preservada. Mas isso não se coloca no movimento. O movimento é apartidário. É dos estudantes. A liberdade política de cada um
é outro assunto.

Como você resumiria o ensino médio que os estudantes querem? 

O ensino médio que a gente vê como de qualidade não está contemplado na Medida Provisória. A gente quer um ensino que dê voz aos estudantes e que o leve para uma formação cidadã também. Um ensino médio que lhe dê pensamento crítico e não o tire.

Sobre as ocupações, como você avalia a atuação policial e a cobertura da mídia?

Nas ocupações, a gente só tinha uma visão bem distorcida na mídia. Tudo que tinha era ‘um bando de arruaceiros’, ‘tão impedindo o direito dos outros estudantes’. Não se mostrava em nenhum momento o que a gente fazia lá dentro e quando mostrava era de uma forma distorcida. A questão da violência policial é um problema bem grave. Uma coisa é você ser contra, e isso a gente respeita. Outra coisa é partir para a agressividade. Isso é inadmissível. A gente não tá lá agredindo ninguém. E não aceitamos violência contra a gente. As ocupações, de uma forma geral, estão alcançando resultados positivos para os alunos que estão nas escolas. O companheirismo vence muito mais. Você conversa com pessoas que você nunca imaginou. As ocupações conseguiram levar visibilidade à voz estudantil.

O movimento dos estudantes já não é mais uma coisa local, do Paraná. Tem ganhado terreno em todo o Brasil. Como você vê isso?


Desde o início a gente esperava isso. Que ganhasse força e deixasse de ser Curitiba e Região Metropolitana. O movimento se alastrar e ganhar visibilidade nacional é algo muito bom para o movimento estudantil.

Surgiram muitas críticas de que os jovens que estavam ocupando não sabem o que estão reivindicando. Como você analisa isso?

É bom deixar claro que não somos doutores em nada. Não temos curso superior. Somos estudantes do ensino médio. Obviamente a gente não vai saber falar como um constitucionalista ou como um economista. Mas também é subestimar demais nossa capacidade falar que a gente não sabe nada daquilo. A gente sabe minimamente definir o que a gente é contra e o que a gente é a favor. A gente tá lutando por uma educação pública de qualidade. A gente não vê a MP como uma melhoria no ensino médio. Nossa reivindicação principal é a não aprovação da MP 746 e da PEC 55. Essas são pautas nacionais. Mas dentro de cada escola existe uma singularidade.

Muita gente não sabe ou tem dúvida sobre o que acontece nas ocupações. Como é o dia a dia de vocês?

A gente procura colocar várias atividades como oficinas, cinedebates. Justamente para o estudante não ficar sem estudar ou sem fazer nada. Quem não conhece ainda as ocupações, vá a uma escola ocupada e converse. Fala sobre isso porque você tá indo. Coloca propostas ou fica à disposição. Abre esse canal de diálogo que a gente também vai abrir. Não estamos descartando visitas. Em nenhuma escola normal você pode simplesmente entrar na escola. Então, em uma ocupação, nosso cuidado é redobrado.

Você mencionou na palestra que as ocupações são uma maneira que vocês acharam de ganhar visibilidade. Quais seriam os próximos passos?

Na realidade, isso é um tema bem discutido entre a gente. A gente ia às ruas e falava. Ninguém via, ninguém escutava. Na Arnaldo Jansen (primeira escola ocupada no Paraná), eles viram isso como possibilidade de ganhar visibilidade se a gente ocupasse a escola. Porque isso incomoda. Foge da normalidade. Por isso a gente escolheu ocupar. É muito difícil falar dos próximos passos porque depende de uma mobilização nacional e de como os estudantes vão conseguir se comunicar. Mas, basicamente, é continuar levando o movimento estudantil para frente e não parar de falar disso.


 Fonte: O Povo

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