7 de jan de 2016

Turismo insustentável degrada santuários ecológicos

FONTE: BAHIA.BA
O Brasil está no topo dos países mais biodiversos do mundo, mas apenas 10% dos destinos turísticos brasileiros atendem a requisitos considerados sustentáveis
Liliana Peixinho




Lixo às margens do Rio Paraguaçu, na Bahia (Foto: Liliana Peixinho)

Lindos e diversos são os roteiros ecoturísticos na Bahia, no Nordeste, no Brasil. Múltiplas têm sido as formas de degradação e exploração estradas afora, caminhos adentro. A desarmonia entre Homem e Natureza reforça a necessidade do cuidado com a vida. As pessoas fogem dos grandes centros urbanos, insustentáveis, para tentar se encontrarem consigo mesmos, em essência de vida, longe do trânsito caótico, da violência, da correria estressante do cotidiano. Mas o campo, o sitio, a roça, a praia, um refúgio qualquer com sossego, água fresca, sombra e paz, está cada dia mais difícil. Os problemas também se movimentam, entre um espaço e outro.
Especulação imobiliária, turismo sexual, exploração de mão de obra nativa, degradação dos ecossistemas, em trilhas e roteiros ecoturísticos caminham na contramão do turismo sustentável. A harmonia, o equilíbrio, a preservação da beleza e potencial natural continuam dependentes de ações que não saem do papel. O comportamento humano anda acelerado com a revolução tecnológica e isso aumentou o fluxo de pessoas pela Terra. De acordo com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), o Brasil movimentou quase R$ 500 bilhões, entre atividades diretas, indiretas e induzidas. Para especialistas da área, o país poderia aumentar ainda mais essas receitas se os roteiros fossem mais atrativos ao desenho do cenário sustentável.


Para ser classificado como sustentável o destino deve atender a requisitos de práticas políticas com ações transversais que levem em conta, sobretudo, a comunidade local, observando a preservação da riqueza do lugar, com resgate e valorização das tradições e raízes culturais, da identidade, do emprego e renda, realmente inclusivos, e não maquiadas em subemprego ou empregos temporários, que mais exploram que valorizam a mão de obra. Sistema perverso que alimenta demandas estimuladas por pacotes e campanhas publicitárias que seduzem, encantam, sem o compromisso de garantir estruturas para o bem-estar de quem chega e de quem recebe. Variável social que envolve ações de comunicação, articulação e mobilização, com pesquisas, levantamento de dados, registros fotográficos, depoimentos, questionários, entrevistas, entre outras ferramentas da comunicação. Ações que fortaleçam o que especialistas chamam de modelo de “desenvolvimento endógeno”, com mobilização social, participação comunitária, estímulo ao potencial empreendedor, inclusão social e, conseqüentemente, desenvolvimento da comunidade local.
Embora o Brasil esteja no topo dos países mais biodiversos do mundo, estima-se que apenas 10% dos destinos turísticos brasileiros estejam próximos de atender a requisitos considerados sustentáveis. Segundo informações do Conselho Nacional de Turismo, a Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, e Bonito, no Mato Grosso do Sul, são os modelos mais próximos do que poderíamos chamar de um cluster de turismo, por atender pré-requisitos de práticas sustentáveis como uso de tecnologias limpas e alternativas, preservação de ecossistemas e modelo de gestão compartilhada entre Estado, empresas e comunidade local.
Trilhas em parques nacionais, unidades de conservação, praias paradisíacas, cachoeiras, banhos de rios, e um sem fim de cenários ricos e belos, potencializados em cartões-postais, comerciais de TV, revistas e sites especializados enchem os olhos e a imaginação das pessoas, carentes de vida em paz. O resultado dessa propaganda massiva gerou demandas além da preparação desses destinos. Sustentabilidade é muito mais que a preservação de animais e florestas, requer a preservação do patrimônio histórico e cultural e principalmente, das populações anfitriãs.
Quem chega de fora com referências em cuidado tem exigências sobre o impacto nos ecossistemas e educado, não quer compactuar com o jeito sem cuidado nosso de ser. Sem critérios rígidos, o Brasil perde em credibilidade, confiança. Exemplo emblemático de turismo insustentável está no berço do Brasil: Porto Seguro. Ávido por mostrar suas belezas, o município cresceu de forma desordenada e agora sofre com a ”favelização”. As pousadas mantidas por moradores perdem espaço para o capital estrangeiro, onde a especulação imobiliária devasta, desmata, degrada antigos santuários ecológicos, como Trancoso, Arraial d’Ajuda e Prado. E do Sul da Bahia o modelo ganhou em destinos como Itacaré, Barra Grande, Morro de São Paulo, Boipeba, Ilha de Itaparica, Litoral Norte e até sertão adentro, onde a paz catingueira deu lugar ao faz de conta que se diverte.

Liliana Peixinho – Jornalista, MBA em Turismo e Hotelaria, especialista em Jornalismo Cientifico e Tecnológico. Fundadora do Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, autora do livro virtual “Por um Brasil Limpo”.