História

Tropas e viola (IV)

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Os distritos da Parateca, no alto, no município de Carinhanha, e do Gentio, a leste, no município de Guanambi

Os distritos da Parateca, no alto, no município de Carinhanha, e do

Gentio, à direita do Rio São Francisco, no município de Guanambi

Histórias do meu avô

O MEU AVÔ, Domingos Antônio Teixeira, Teixeirinha, era filho de Antônio Othon Teixeira (1875-1940), major Othon, também chamado “Senhor”, e de dona Mariana da Silva Teixeira. Eu cheguei a conhecê-la. Ela sempre recebia os bisnetos com biscoitos e um largo sorriso, embora pouco conversasse. Quanto ao meu bisavô, quando eu nasci ele já havia falecido e pouca coisa a seu respeito foi-me transmitida pelo meu avô.

Sei que sua paixão era a tropa, à qual destinava muita dedicação. Mas, foi no livro “O Distrito de Paz do Gentio e a história sucinta de sua decadência” (Montes Claros, 1997), do escritor Dário Teixeira Cotrim, meu primo e também neto de Teixeirinha, que soube mais a respeito do major Othon. Escreveu Dário Cotrim que, juntamente com os coronéis Franklin Lins de Albuquerque, Horário de Matos, Deocleciano Teixeira e Pedro Francisco de Morais (que viria a ser o avô de Nilo Augusto Moraes Coelho, ex-governador da Bahia), ele representava o poder no sertão da Bahia.

Meu bisavô exercia grande influência no Gentio, um arraial por muito tempo ligado política e administrativamente ao município de Caetité até que, em 1890, após uma nova divisão administrativa do Estado, passou a distrito do município de Vila Bela das Umburanas – atualmente Pindaí. Em 1933, com outra alteração na divisão administrativa do País, o distrito de Gentio foi integrado ao município de Guanambi e teve, em seguida, mudado o seu topônimo para Ceraíma. A esta época, o velho Gentio já estava coberto pelas águas do açude de Ceraíma.

cangalha

Bruacas em uma cangalha

No Gentio, o major Othon comprava e vendia couro, um produto de boa aceitação em toda transação comercial, tanto no interior quanto no litoral do Estado. Sobre sua tropa, registra Dário Cotrim em seu livro: “Sua propriedade consistia de três dezenas de excelentes mulas: as carregadeiras, que usavam as cangalhas de onde se penduravam, ao lado, as bruacas de couro cru, tendo algumas delas chocalhos no peitoral, e a madrinha da tropa, que marchava com um cincerro no pescoço, à frente, conduzindo todo o lote de animais”.

Nas cidades ribeirinhas do médio São Francisco ele comercializava também algodão, azeite, rapadura e outros produtos que levava do Gentio para, em contrapartida, trazer sal, açúcar e tecidos. “Na sua loja, exibia cortes de seda fina, de diversas cores, que geralmente eram transformados em ricos vestidos, usados pelas esposas dos senhores de muitas terras e gado”, escreveu Terezinha Teixeira Santos, neta do major Othon, em seu livro “Uma vida nos caminhos do tempo” (Guanambi, 2004), em que conta passagem da biografia de Teixeirinha, seu pai. As tropas do major Othon chegavam até o povoado de Parateca, atual distrito de Carinhanha, onde mantinha um comércio de produtos variados.

Essas tropas estiveram sempre sob o comando de José Augusto Casimiro, natural de Palmas de Monte Alto, que conduzia com dedicação o difícil transporte de cargas. Respeitado pelo seu trabalho e já contando com 27 anos de idade o tropeiro José Augusto Casimiro casou-se com Ana Ribeiro, aos 18 anos, com quem teve cinco filhos. Um deles, Maria Alice Casimiro, veio a se casar, em 1924, com Domingos Antônio Teixeira, meu avô e filho do dono da tropa. Juntando as informações, pude compreender, então, esta minha ligação com o tropeiro, com a vida desses homens empreendedores e com a viola.

Em pesquisa pela Internet, li no trabalho “Tropas e Tropeiros”, de João Dornas Filho, publicado pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1956, que o príncipe austríaco Ferdinand Maximiliano de Habsburgo, após percorrer as províncias do Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte das de Minas e Bahia, entre 1815 e 1817, confessou sua admiração pelas tropas.

Reproduzo o que escreveu o príncipe: “É espetáculo interessante o de uma dessas tropas, aliás, características dos campos gerais. Sete burros formam um lote, conduzido e atrelado por um homem que dele cuida. O primeiro animal da tropa tem uns arreios pintados e guarnecidos de numerosos guizos. O chefe da tropa vai a cavalo, na frente, com alguns de seus associados ou ajudantes; todos vão armados de cumpridas espadas e vestem botas de couro castanho, que sobem até muito em cima. Cobre-lhes a cabeça um chapéu de feltro cinzento claro. Essas tropas quebram, às vezes, a triste uniformidade dos campos”.

Uma vista certamente contemplada pelos tropeiros que chegavam às terras onde atualmente está cidade de Guanambi (ao fundo)

Uma vista certamente contemplada pelos tropeiros que chegavam

às terras onde atualmente está a cidade de Guanambi (ao fundo)

Os tropeiros tinham a própria cozinha e a dieta desses transportadores enriqueceu a culinária das regiões por onde passavam. A maioria das comidas era à base de farinha de milho e de mandioca, feijão, toucinho, fubá e carne salgada, os mais comuns no preparo dos pratos, em razão de serem mais duradouros. Dizia-me meu avô que o tropeiro absorveu hábitos alimentares ao longo da sua lida diária, os quais eram adotados durante suas longas viagens. Principalmente quando estavam nos pousos, que eram os locais de parada para descanso e alimentação.

Comiam feijão cozido com toucinho, arroz com charque, farinha e, em algumas ocasiões, galinha, pão e café. A culinária mineira absorveu o feijão com toucinho – o feijão-tropeiro ou feijão-de-tropeiro, feito com feijão-mulatinho que, depois de escorrido e refogado em gordura e outros temperos, é misturado a um pouco de farinha de mandioca ou de milho, e completado com pedaços de lingüiça frita e torresmo. No sul do País, o arroz com charque, ou arroz-de-carreteiro, é à base de carne-seca ou carne-de-sol desfiada ou picada, às vezes paio e lingüiça em pedaços, refogados em bastante gordura, alho, cebola, tomate e cheiro-verde.

Estudiosos escreveram anos depois de encerrado o trabalho das tropas que a introdução do comércio entre moradores e tropeiros reformulou as relações sociais. Para atender as necessidades das tropas, quando da passagem pelos centros urbanos, surgiram curtumes, ferrarias, negociantes de couro, funilarias e hotéis. Os pousos dos tropeiros deram origem a pequenas aglomerações e, posteriormente, a centros urbanos e grandes cidades.

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